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CRÓNICA Os grandes
A maior corrida do mundo não merecia uma edição assim. OK, talvez se estejam a guardar para a edição número 100 e nesse dia voltem todos em força, para tentar um über alles que vai ficar escrito na pedra para toda a eternidade, mas as 24 Horas de Le Mans mere- ciam outro tipo de competitividade. A culpa não é da Toyota – parabéns à Toyota! Para ganhar é preciso competir. Quem fica de fora, a troçar, cai rapidamen- te no ridículo. A culpa também não é dos adversários que correram contra a Toyota, porque não foram eles que fizeram o regulamento. A única “culpa” que têm é a de, talvez, sonharem mais alto do que aquilo que a realidade permite, na utopia de que um gigante de milhões pudesse quebrar, outra vez, e abrir ca- minho a uma vitória de tostões. Talvez as 24 Horas de Le Mans de 2018 pudessem ter sido só com os carros de GT, oh! que bela luta, mas... bom, tam- bém aí o espetáculo ficou arrumado muito cedo.
Ciclicamente há edições assim. Assisti a algu- mas edições ao vivo, umas muito quentes (como aquela em que o Mark Webber saiu de um Merce- des em chamas, depois de um voo de umas cen- tenas de metros ao passar na lomba de Mulsan- ne, mesmo nas minhas barbas e nas barbas do Francisco Mota, os dois, congelados, junto ao rail) e a outras assim-assim. Mas ao vivo é outra ma- gia e a corrida é sempre boa, porque lá, na pista, é tudo bom. Menos o trânsito para entrar e sair, mas isso não vem agora ao caso. Parece que o mundo das corridas de automóveis também vive de ciclos: o de Fangio, o de Senna, o de Schuma- cher na Fórmula 1, o de Loeb nos Ralis, o da Audi
e o da Porsche no Endurance... Ciclicamente, há uns que estão muito contentes, e outros que barafus- tam por tudo e por nada.
Fernando Alonso, hoje nas bocas do mundo porque ganhou as 24 Horas de Le Mans na estreia e ficou a um... ahem... pequeno passo de conquistar a Triple Crown, não está nada velho, porque velhos são os tra- pos. Está bom, está em forma, está com uma perícia de mestre e uma experiência difícil de equiparar. Mas está ranzinza. Num dia diz que está na Fórmula 1 de alma e coração, noutro diz que aquilo é uma chatice e não tem piada nenhuma. Lembro-me de entrevis- tá-lo quando ainda era miúdo, uma jovem esperança da Renault. Nessa altura não era nada amargo, nem se abatia pela força das lágrimas que verteu num ano muito sofrido quando se estreou pela Minardi, em que mal se conseguia mostrar ao mundo. Há dias, disse
ele, o Grande Prémio do Mónaco foi muito aborreci- do. Uma procissão! Curioso... não me lembro de ter achado assim tão chato quando ele próprio ganhou a procissão do Mónaco em 2006, com 14 segundos de vantagem sobre Montoya e 52 sobre Coulthard. E atualmente também se queixa, frequentemente, que a Fórmula 1 é um jogo de interesses em que os bastidores políticos decidem as regras e os resulta- dos, mas não me lembro de ter escutado, uma vez que fosse, o seu lamento sobre o triste desfecho do Grande Prémio de Singapura de 2008, durante o qual o seu chefe pediu ao colega de equipa que tirasse o azimute a uma parede para que ele pudesse ganhar. Talvez não haja mesmo mais caminho para Fernan- do Alonso na Fórmula 1. Talvez o seu próprio futuro esteja nos Estados Unidos, numa McLaren que o seu amigo Zak Brown vai inventar para que ele possa ga- nhar Indianápolis... se entretanto não se incompatibi- lizar com a Honda. Zak Brown, só ele, parece o único, neste momento, com paciência para aturar Fernando Alonso – como aqueles pais que têm receio de ir com os miúdos às festas de outros miúdos, porque eles sofrem de Tourette e a qualquer momento podem desatar a ofender tudo e todos à sua volta.
Queira-se ou não, Fernando Alonso é um grande sím- bolo do desporto motorizado num país onde não fal- tam grandes símbolos no desporto motorizado. Um país unido pela coroa, mas retalhado por diferenças de identidade profundas em cada província. Se eles gostam assim tanto dele, nós, portugueses, eterna- mente unidos em torno dos melhores do mundo a dar pontapés numa bola, também seremos capazes de nos unir em torno dos nossos grandes símbolos do desporto motorizado, como Filipe Albuquerque, António Félix da Costa e Pedro Lamy, que tão pouca pouca sorte tiveram em Le Mans, ou como esse pro- dígio chamado Miguel Oliveira, que não tarda haverá de ter o mundo (das duas rodas) a seus pés.
PEDRO NASCIMENTO Chefe de redação
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