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OPINIÃO A capital das... corridas
O túnel do Marão (ou a A24) leva-nos num pulo. Do topo, olhamos para o vale e perguntamos: onde raio vão fazer ali um circuito, no meio da cidade? Quanto mais nos em- brenhamos na capital de Trás-os-Montes, mais dúvidas temos. Contudo, sente-se logo uma enorme paixão das gentes. As corridas em Vila Real são parte do cenário, ul- trapassam gerações, décadas, séculos. Adaptam-se aos tempos, às crises, às tragédias, às necessidades de segu- rança. Fervem no coração dos vila-realenses. Estão em- brenhadas na carne... ou não tivesse sido um imposto so- bre a venda da mesma a dar origem ao 1º Circuito, em 1931. Este fim-de-semana, Vila Real volta a engalanar-se para as corridas. Veste o traje de gala dos rails, das redes, dos separadores New Jersey, das tendas do paddock, das fai- xas de publicidade. É o habitual “casar” com as corridas, sendo que o DJ passa som de motores e de pneus a chiar na hora da dança. A “noiva” é nova: WTCR. Parece mais prendada que a anterior e carrega um dote maior. Há “pa- drinhos portugueses” – José Rodrigues e Edgar Florindo. As “damas de honor” mostram vestidos diferentes, de vá- rias décadas e costureiros, mas são tão gaiteiras quanto a nubente. E são casadoiras, procurando também encantar os convivas.
Há sempre uma magia especial no ar. A que descobri nos textos dos jornais Motor e Volante e que, em 1973, levou- -me a pedir de presente dos 11 anos uma ida às corridas. Lá fomos, em excursão familiar, no Vauxhall Viva 1800. Horas e horas de viagem, bem diferente de agora. Que- ria ver o Lola T292-Ford “BIP” de Carlos Gaspar, o March 73S-BMW de Mário Araújo Cabral, os Chevron B23-Ford “Red Rose Racing” de Peter Gethin e John Bridges e, mais ainda, o GRD S73-Ford da “DART” guiado por outro ex-F1, Dave Walker. Havia também o fantástico Ford Capri de Jorge de Bragation na corrida de Turismos. Olhando para trás no tempo, senti-me o menino na loja dos brinquedos. Lembro-me de querer ir à “Descida de Mateus”, ainda sem protecções algumas e a minha mãe achar que era perigoso. Mas ficou gravada a saída dos carros da “Salsicharia”. Naquelas idades, a memória enso- pa tudo como uma esponja. Uma hora e meia a ver passar os carros, bem espaçados diga-se, pois Gaspar venceu com 12 segundos de vantagem e o terceiro cortou a meta quase dois minutos mais tarde. Eram outros tempos...
Voltei a Vila Real onze anos depois, em 1984. O prazer pelo Desporto Motorizado era o mesmo. Ou se calhar maior, pois ia trabalhar para o “Motor”. A paixão com ordenado ao fim do mês. Pouco, verdade, mas pagavam-me para “ir ver cor- ridas”! O circuito tinha perdido o estatuto internacional. As provas de circuito em Portugal viviam um período compli- cado, de incertezas, de poucos participantes, fruto de um momento de crise económica. Os Grupo B corriam com os Grupo N. No final, houve protestos e o vencedor, tal como o “protestante”, acabaram desclassificados por ilegalidades nos BMW M1. Havia mais para contar no “à margem” do que no “desporto”, como descrevia, e bem, Vítor Sousa na sua crónica. Ou seja, pouco mudou no país e nas corridas...
O engraçado é lembrar-me mais da viagem do que das provas desse ano na “Bila”. A idade (e o menor espetáculo) não perdoa no que guardamos em nós. Uma viagem sem autoestrada, de Lisboa para Coimbra, daí para Viseu, La- mego, Peso da Régua, até Vila Real. Sete horas e meia, a bom ritmo. Eramos seis numa (então) enorme carrinha Peu- geot 504 Renforce. Eu e o Vítor íamos no terceiro banco. Nas curvas de Lamego e do Peso da Régua, o nosso corpo ainda virava para um lado e já Mário Guerreiro dava ao vo- lante para inserir a “máquina” na trajetória oposta. O sau- doso Pelejão Marques animava as “tropas” com o seu hu- mor, cáustico e sonoro. Dava um filme, tudo aquilo. Tempos, nem sequer muito longínquos, onde viajar mais de 300 km por Portugal se tornava uma aventura.
Fui mais vezes a Vila Real ver competições de carros e mo- tos. Sempre bem-recebido, sempre acarinhado por gente de boa cepa. Quando no domingo abrir o microfone no Eu- rosport para comentar a qualificação 2 e as Corridas 2 e 3 do WTCR, vou voltar a adorar sentir essa festa que trans- forma uma cidade do interior numa Capital... das Corridas!
JOÃO CARLOS COSTA Comentador do Eurosport
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