ação antiedematosa, vasodilatadora, an- ti-inflamatória, varredora de radicais livres, inibidora de agregação plaquetá- ria, bloqueadora de canais de cálcio e facilitadora de regeneração da fibra ner- vosa. Sua infusão sistêmica foi proposta como um meio de aumentar o fluxo san- guíneo medular63
.
Bloqueadores de canais de cálcio O agente mais estudado dessa classe
é a nimodipina, por ter seus efeitos sobre a função circulatória do SNC. Ela age sobre a microvasculatura, atenuan- do o vasoespasmo induzido pela lesão, o que faz aumentar o fluxo sanguíneo medular e reverte a isquemia pós- traumática em modelos experimentais. Age também sobre o processo de excitotoxicidade, impedindo sua pro- gressão, embora alguns estudos mos- trem que, quando administrada após o trauma, a nimodipina não parece ter efeito benéfico significativo, e sim quando a terapia é iniciada antes do trauma 22,57
. Recentemente foi demons-
trado o efeito neuroprotetor do dantro- lene sódico, um derivado da hidantoína que impede o acúmulo de cálcio intra- celular ao diminuir a apoptose e preser- var a viabilidade de neurônios espi- nhais em ratos submetidos a trauma medular78,79
.
Cuidados em longo prazo As consequências do trauma medular
são graves e, além da incapacidade lo- comotora, manifestam-se na perda de controle sensorial, urológico, fecal e sexual11,18,41,80-83
. O decúbito prolongado e
a falta de movimentação desencadeiam anormalidades dos sistemas respirató- rio, cardiovascular, digestório, imune, tegumentar e musculoesquelético. Essas complicações requerem a devida aten- ção para que seja possível prolongar e proporcionar melhor qualidade de vida ao paciente 18,84,85
. Em geral, os pacientes que sofreram
trauma medular apresentam algum nível de dor devido à lesão inicial, às lesões secundárias associadas ao trauma ou às intervenções cirúrgicas que se façam necessárias. Entretanto, a dor tardia não é comum em pacientes tratados de for- ma conservativa após quatro a seis se- manas de repouso. Além disso, o uso de analgésicos adequados, principal- mente na primeira semana, é de extrema
importância e deve ser assistido de perto, para que sejam identificados e tratados possíveis sinais de dor 11,18,83
.
Devido à perda de mecanismos ter- morreguladores, alguns pacientes com trauma medular desenvolvem hipoter- mia ou hipertermia, dependendo da temperatura ambiente. Por isso é impor- tante o monitoramento desses pacientes, especialmente durante o exame clínico inicial, já que a hipotermia agrava a bra- dicardia e pode gerar arritmias cardía- cas. Ademais, fontes de aquecimento externo, como colchões térmicos, po- dem causar graves queimaduras em pa- cientes com déficit termossensorial 41,83 O paciente com trauma medular está
.
mais propenso ao desenvolvimento de coágulos sanguíneos, conhecidos como trombose venosa. Essa condição é de origem multifatorial e está associada à diminuição da pressão sanguínea, às al- terações do tônus vascular, às imobiliza- ções de membros e às paralisias. O trombo migra de seu local original e se instala nos vasos pulmonares, onde blo- queia a passagem sanguínea. Isso é co- nhecido como embolismo pulmonar e pode levar à morte súbita. Em seres hu- manos, cerca de 80% dos pacientes com trauma medular desenvolvem trombose venosa, por isso se indica o tratamento profilático à base de anticoagulantes e inibidores da agregação plaquetária, desde que sejam avaliadas as possibili- dades de coagulopatias concorrentes ou de intervenção cirúrgica 80,85
. A função respiratória é comandada
pelo diafragma e pelos músculos inter- costais, inervados pelos ramos nervosos oriundos do segmento cervical e toráci- co, respectivamente. Muitos traumatis- mos resultam em falência respiratória, necessitando, portanto, de ventilação me- cânica para manter a vida. Essa falência ocorre devido à perda da capacidade ins- piratória e à inabilidade em tossir, o que impede o paciente de expelir as secre- ções pulmonares. O acúmulo de secre- ções e a incapacidade de expansão pul- monar levam ao desenvolvimento de afecções como pneumonia e ate-lecta- sia. Ainstauração de um bom regime de fisioterapia respiratória é imprescindí- vel para evitar tais complicações. Ama- nutenção do paciente em decúbito ex- ternal e a realização de movimentos vi- bratórios e de percussão da parede toráci- ca facilitam a expulsão de tais secreções.
Em alguns casos é necessário usar bron- codilatadores e umidificadores para aju- dar a manter uma boa função respi- ratória 80,83,85,86
.
A perda da capacidade de controle voluntário dos esfíncteres gera inconti- nência ou retenção de fezes e urina. A retenção fecal resulta em desequilíbrio eletrolítico e constipação, que evolui para fecaloma, requerendo a administra- ção de emolientes fecais ou a realização de enemas. A manutenção de uma dieta rica em fibras, a ingestão apropriada de fluidos e refeições feitas em horários re- gulares tornam-se primordiais no trata- mento em longo prazo desses pacientes com comprometimento intestinal. Já a perda da função vesical leva a proble- mas devastadores se não tratada apro- priadamente. Grande parte das mortes, em função de complicações do trauma medular, se deve a complicações uroló- gicas secundárias, sejam elas a infecção do trato urinário ou a falência renal. A retenção deve ser assistida por esvazia- mento vesical, seja por meio de massa- gens abdominais ou de cateterização uretral. Alguns fármacos também ajudam no relaxamento do esfíncter uretral ou na contração da musculatura da bexiga, auxiliando a eliminação urinária. Em casos de incontinência fecal ou urinária, o paciente deve ser mantido sempre hi- gienizado e seco, para evitar assaduras e outras complicações cutâneas 41,80,83,85,87,88 Devido à perda da sensibilidade do-
.
lorosa, desenvolvem-se feridas nos locais de maior pressão de contato, chamadas úlceras de decúbito. Essa complicação também é responsável pelo aumento do tempo de hospitaliza- ção, elevando assim as taxas de mor- bidade e de mortalidade desses pacientes. Mais uma vez, a prevenção é o melhor tratamento. Devemos trocar o decúbito do paciente a cada, no máxi- mo, duas horas e proporcionar uma cama acolchoada e de material imper- meável para facilitar a limpeza. No caso de animais que se arrastam, cadeiras de rodas são necessárias para evitar tais lesões. Depois de instauradas, essas feridas devem ser mantidas limpas e secas e alguns casos mais graves reque- rem intervenções cirúrgicas 41,80,83
. Devemos ter em mente que os pa-
cientes tratados com corticoideterapia ou com anti-inflamatórios não esteroi- dais por tempo prolongado podem
Clínica Veterinária, Ano XV, n. 87, julho/agosto, 2010 83
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