Figura 1 - Representação esquemática anatô- mica de corte transversal da medula espinhal íntegra de cães e gatos
Fisiopatogenia do trauma medular Eventos primários Atransferência de um impacto mecâ-
nico para a medula espinhal resulta em ruptura de vasos sanguíneos, de corpos neuronais, de axônios e de demais célu- las nervosas (ver Figura 1 para revisão anatômica da medula espinhal íntegra). Esse impacto é considerado a causa da lesão medular primária e a gravidade das alterações histológicas será propor- cional à magnitude do trauma inicial (Figura 2) 13-15
. Alesão primária não pode ser evitada
e em seu estágio agudo ocorre destrui- ção da barreira hematoencefálica e dos vasos sanguíneos locais. A injúria vas- cular gera hemorragia, edema e isque- mia locais e, na presença de hipoxia e hipoglicemia, o metabolismo torna-se anaeróbio, instaurando-se acidose láti- ca. O conjunto desses eventos resulta em necrose hemorrágica central da substância cinzenta, que se inicia dentro de aproximadamente quinze minutos após o trauma. A degeneração neuronal é observada por volta de uma a quatro horas depois, e após cerca de quatro a oito horas ocorrem edema e tumefação
Figura 2 - Representação dos eventos progressivos da injúria medular, desde o trauma mecânico agudo até as lesões secundárias subsequentes. Horas após a lesão primária, caracterizada por necrose tecidual local, há degeneração walleriana e morte celular por apoptose nos segmentos medulares cranial e caudalmente adjacentes ao local do trauma inicial
axonal focal na substância branca 1,16-18 .
Dependendo da gravidade da lesão, a necrose vai se estender em sentido cra- nial e/ou caudal. Enquanto nos traumas moderados a medula apresenta cavita- ções císticas centrais, em alguns casos mais graves toda a medula se torna ne- crótica e sofre liquefação, sendo man- tida no lugar apenas pelas meninges (Figuras 3 e 4) 7
. As razões para o envolvimento prefe-
rencial da substância cinzenta não foram ainda totalmente esclarecidas. Contudo, a disposição e a compactação das substâncias branca e cinzenta são fatos contributivos. Em contraste com as fibras intimamente compactadas na substância branca, os neurônios e seus processos estão frouxamente dispostos na cinzenta e, portanto, são mais predis- postos à separação pela hemorragia e pe- lo edema. A predominância de hemor- ragias na substância cinzenta também pode ser associada à sua grande rede capilar, suscetível ao trauma mecânico. O aumento da pressão intramedular es- pinhal pós-traumática também está mais concentrado centralmente, predispondo essa área a lesões mais intensas. Além
disso, a maior demanda metabólica da substância cinzenta em comparação à substância branca é fator adicional para sua maior susceptibilidade ao trauma, em particular durante os períodos de isquemia 17
.
As alterações vasculares produzem diminuição do aporte de adenosina tri- fosfato (ATP), gerando disfunção de processos dependentes de energia, co- mo a bomba de sódio e potássio, respon- sável pela preservação da homeostase celular. De maneira concomitante, o edema que comprime os tecidos produz variação anormal nas concentrações de eletrólitos (cálcio, sódio e potássio) no líquido intersticial. Tais alterações inter- ferem na excitabilidade e na transmissão sináptica, o que justifica a possível in- terrupção da condução do estímulo ner- voso imediatamente após o trauma2,19 Seguindo-se à lesão vascular, instau-
.
ra-se um processo inflamatório e imu- nológico que inibe a reparação axonal13
.
As respostas imunomediadas envolvem componentes celulares (neutrófilos, ma- crófagos e células T) e componentes não celulares (citocinas e prostaglandi- nas). Aproximadamente entre três a seis
Figura 3 - Fotomicroscopias de secções transversais da medula espinhal de ratos Wistar coradas em H.E. A) Medula espinhal morfologicamente nor- mal, circundada pelas meninges, dividida em substâncias branca (SB) e cinzenta (SC). A seta indica o canal ependimário. B) Epicentro de medula com lesão aguda, mostrando vários focos de malácia extensa e grave tanto da substância branca como da cinzenta (22,1x). C) Degeneração axonal em segmento adjacente ao epicentro de lesão (25,3x)
Clínica Veterinária, Ano XV, n. 87, julho/agosto, 2010 73
Karen M. Oliveira e Bruno B. J. Torres
Bruno Benetti Junta Torres
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