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Uma das principais consequências da disfunção mitocondrial, da atividade das COX e das LOX e da ativação de NOS é a formação de radicais livres de oxigênio (RLO), os quais promovem al- terações estruturais em proteínas, car- boidratos, ácidos nucleicos e lipídeos, permitindo a formação de lipoperóxi- dos que destroem as membranas celula- res 1,2,28,29


. O trauma induz ainda a liberação de


opioides endógenos, que exacerbam o processo da lesão secundária pela esti- mulação de receptores NMDA e pela ativação de receptores opiáceos, os quais contribuem para promover dis- função vascular e distúrbios iônicos e metabólicos 29


. A morte de neurônios e oligodendró-


citos interfere com a condução sináptica e induz a degeneração da mielina. O processo de degeneração axonal e de seu estrato mielínico distal ao local de separação do corpo neuronal é denomi- nado degeneração walleriana. Adegene- ração dessas estruturas resulta numa série de segmentos ovoides conhecidos como elipsoides, que são removidos por macrófagos, deixando vacúolos resi- duais por toda a substância branca. A distribuição anatômica dessas altera- ções na medula espinhal reflete a orga- nização das vias aferentes (sensitiva – corpos celulares caudais a lesão) e efe- rentes (motoras – corpos celulares cra- niais a lesão) da medula espinhal. Os vacúolos e axônios em processo de de- generação são mais evidentes nas colu- nas dorsolaterais (principalmente afe- rentes), cranialmente à lesão, e nas colu- nas ventrolaterais (principalmente eferentes), caudalmente à lesão. Nas


Localização da lesão na medula espinhal*


cervical (C1-C5)


cervicotorácia (C6-T2)


toracolombar (T3-L3)


lombossacra (L4-S3)


proximidades do local traumatizado, as terminações axonais ainda aderidas ao corpo celular tornam-se distendidas com o axoplasma, formando balões axonais 17


. A partir de quatro horas depois do


trauma, podem-se detectar células neu- ronais e gliais apoptóticas, com picos em oito e 24 horas respectivamente 20


.


Dentro de sete dias ocorre um aumento progressivo da área lesada e as cavita- ções aumentam, com mais morte neuro- nal e glial. Um terceiro pico de apopto- se, dessa vez de oligodendrócitos, é de- tectado no sétimo dia, associado com o agravamento da degeneração axonal. Os oligodendrócitos tardiamente mortos re- duzem a possibilidade de remieliniza- ção após a lesão axonal. Existem indí- cios de que os axônios, quando altera- dos, não produzem estímulo para a so- brevivência dos oligodendrócitos, ou seja, estes dependeriam dos axônios in- tactos para sobreviver 36


. No período de uma a quatro semanas


já existem áreas bem demarcadas de ca- vitações dentro das substâncias branca ou cinzenta, a degeneração walleriana é extensa e o tecido cicatricial é preenchi- do por astrócitos, outras células da glia e até por fibroblastos, representando os estágios finais da evolução histopatoló- gica da lesão medular24,37


.


Resposta ao trauma Uma vez destruídos os neurônios do


sistema nervoso central, eles não serão substituídos, embora se possam formar novos padrões de circuito que carrearão impulsos nervosos. Tanto os oligoden- drócitos quanto os astrócitos podem ser regenerados no SNC. Aregeneração dos


paresia/paralisia


hemiparesia ipsilateral até tetraplegia


hemiparesia ipsilateral até tetraplegia


paraparesia espástica até paraplegia


paraparesia até


paraplegia flácida (L4-S1); normal (apenas S2-S3)


* Segmentos da medula espinhal ± Pode ou não estar presente Figura 6 - Sinais clínicos das síndromes espinhais (adaptado de41


76 ) Clínica Veterinária, Ano XV, n. 87, julho/agosto, 2010 reflexos em


aumentado diminuído


a ausente normal normal


oligodendrócitos possibilita a reposição da bainha de mielina nos axônios aco- metidos, levando assim à restauração de uma condução segura. Esse processo, entretanto, nem sempre ocorre de forma espontânea, por motivos ainda não es- clarecidos, talvez devido a alterações de fluxo sanguíneo na região acometida ou à depleção da reserva dos progenitores de oligodendrócitos. Após a degenera- ção axonal, há proliferação e hipertrofia astrocítica, denominada astrocitose ou gliose reativa, que costuma evoluir, pro- duzindo uma cicatriz prejudicial que atua como uma barreira, impedindo o crescimento axonal 17


. Em alguns casos, ocorre o restabele-


cimento da função perdida após consi- derável dano tecidual. A função recupe- ra-se espontaneamente, como resultado da resolução de lesões reversíveis, ou por meio da reorganização dos circuitos so- breviventes, um processo denominado “plasticidade”. Além disso, sinapses inativas podem ser convertidas em fun- cionais, formando novos padrões de cir- cuitos alternativos 17


. Esses processos


tendem a ocorrer em tempos diferentes após a lesão. A reversão da disfunção geralmente ocorre de forma rápida após a lesão, em cerca de catorze dias, en- quanto a plasticidade continuará ocor- rendo por um período de semanas ou meses16


.


Alterações clínicas e localização das lesões medulares Amanifestação clínica do trauma


medular depende de sua localização (Figura 6), sendo que a disfunção vai re- fletir a intensidade da lesão na substân- cia branca ou cinzenta. O prognóstico


reflexos em


membros torácicos membros pélvicos normal a


normal a


aumentado normal a


aumentado normal a ausente outros sinais


dor e rigidez cervical


± síndrome de Horner


(T1-T2), perda ipsilateral do reflexo do músculo


cutâneo do tronco (C8/T1) retenção urinária e fecal;


aumentado ± postura de Schiff-Sherrington diminuído a


incontinência urinária e fecal; cauda flácida


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