Ens ino A busca de um ideal aparentemente
utópico, o de abolir toda e qualquer for- ma de experimentação animal, tanto na indústria como nas escolas, não permite o comodismo nem o preconceito. Im- prescindível que o cientista e/ou profes- sor saia da inércia acadêmica para trazer aos centros de pesquisa e às universida- des alguns dos métodos alternativos já disponíveis e que poderiam perfeita- mente ser adotados no Brasil, dispen- sando o uso de animais. Há que se relacionar aqui, a título exemplificativo, alguns dos mais conhe- cidos RECURSOS ALTERNATIVOS que se ajustam ao propósito do legisla- dor ambiental e que poderiam, vários deles, inspirar uma metodologia cientí- fica verdadeiramente ética, a saber: • Sistemas biológicos in vitro (cultura de células, de tecidos e de órgãos passíveis de utilização em genética, microbiologia, bioquímica, imunologia, farmacologia, radiação, toxicologia, produção de vacinas, pesquisas sobre vírus e sobre câncer); • Cromatografia e espectrometria de massa (técnica que permite a identifica- ção de compostos químicos e sua possí- vel atuação no organismo, de modo não- invasivo); • Farmacologia e mecânica quânticas (avaliam o metabolismo das drogas no corpo); • Estudos epidemiológicos (permitem desenvolver a medicina preventiva com base em dados comparativos e na própria observação do processo das doenças); • Estudos clínicos (análise estatística da incidência de moléstias em populações diversas); • Necrópsias e biópsias (métodos que permitem mostrar a ação das doenças no organismo); • Simulações computadorizadas (siste- mas virtuais que podem ser usados no ensino das ciências biomédicas, substi- tuindo o animal); • Modelos matemáticos (traduzem ana- liticamente os processos que ocorrem nos organismos vivos); • Culturas de bactérias e protozoários (alternativas para testes cancerígenos e preparo de antibióticos); • Uso da placenta e do cordão umbilical (para treinamento de técnica cirúrgica e testes toxicológicos); • Membrana corialantóide (teste CAME, que utiliza a membrana dos
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ovos de galinha para avaliar a toxicida- de de determinada substância) etc. Inúmeros países considerados de pri-
meiro mundo já aboliram o uso de ani- mais em pesquisas didático-científicas, principalmente nas escolas, como se pode constatar das nações que integram a Comunidade Européia, o Canadá e a Austrália. Nos EUA, a propósito, mais de 70% das faculdades de medicina não utilizam animais vivos, enquanto que na Alemanha esse índice é bem maior. Vá- rias diretrizes da União Européia foram firmadas com o propósito de abolir os testes com animais, dentre eles os terrí- veis Drize Test e LD 50. Assim, em oposição à doutrina científica oficial que fez da vivissecção um dos intocáveis mitos da ciência mé- dica e influenciou seguidas gerações de pesquisadores, a corrente antivivis- secionista vem ganhando força. Há que se registrar, ao longo dos tempos, vozes ilustres que se levantaram contra o mas- sacre de animais na medicina, dentre elas as de Voltaire, Gandhi, Donald Griffin, Charles Bell, Alfred Russel Wallace, Pietro Croce, Hans Ruesch, Milly Shär-Manzoli, Carlos Brandt, George Bernard Shaw, Jane Goodall, Henry Salt, Mark Twain, Victor Hugo, Leon Tolstói, Richard Wagner, Richard Ryder, Tom Regan e Gary Francione. Ao alvorecer do século XXI, no
Brasil, algumas escolas superiores pas- saram a se empenhar na busca de alter- nativas à experimentação animal, como a Universidade de São Paulo (a Facul- dade de Medicina Veterinária e Zootec- nia adota o método de Laskowski, que no treinamento de técnica cirúrgica uti- liza animais que tiveram morte natural), a Universidade Federal do Estado de São Paulo (que usa um rato de PVC nas aulas de microcirurgia), a Universidade de Brasília (onde o programa de farma- cologia básica do sistema nervoso autô- nomo é feito por simulação computado- rizada), afora aquelas cujo departamen- to de patologia realiza pesquisas apenas com o cultivo de células vivas. Culturas de tecidos, provenientes de
biópsias, cordões umbilicais ou placen- tas descartadas, dispensam o uso de ani- mais. Vacinas também podem ser fabri- cadas a partir da cultura de células do próprio homem, sem a necessidade das técnicas invasivas experimentais envol- vendo a sorologia. Isso sem esquecer
dos modernos processos de análise ge- nômica e sistemas biológicos in vitro, que, se realizados com ética, tornam absolutamente desnecessárias antigas metodologias relacionadas à vivissecção, em face das alternativas hoje existentes para a obtenção do conhecimento cien- tífico. Na área didática, portanto, esses no-
vos métodos de ensino podem perfeita- mente dispensar o uso de animais. Sua metodologia encontra-se disponível na literatura científica antivivissecionista compilada pela rede Interniche, “From Guinea Pig to Computer Mouse” (2001) e no livro de Sérgio Greif, “Alternativas ao uso de animais vivos na educação – pela ciência responsável” (2003).
4. A OBJEÇÃO DE CONSCIÊNCIA Em 1987, nos EUA, a estudante
Jenifer Grahan, da Universidade da Ca- lifórnia, recusou-se a dissecar um ani- mal e foi ameaçada pela instituição. Não obstante isso, a aluna permaneceu firme em seus ideais e levou o caso ao Tribunal, certa de que a postura antivi- vissecionista era um direito que lhe assistia. Tal episódio é comentado pelo biólogo e escritor Sérgio Greif em seu livro “Alternativas ao uso de animais vivos na educação”: “Jenifer recorreu a um tribunal da Califórnia, que compreendeu a proble- mática e abriu precedentes para a atual lei estadual, que estabelece os direitos do estudante de não utilizar animais de forma destrutiva e prejudicial. Atual- mente, cursos que utilizam animais vi- vos ou mortos, ou mesmo suas partes, necessitam notificar antecipadamente os estudantes, para que esses possam usufruir de seus direitos. Os professores podem desenvolver um projeto educa- cional alternativo com 'tempo e esforço comparáveis' ou permitir que o aluno simplesmente se abstenha do projeto, não o prejudicando na nota final (...). Depois do caso de Jenifer, milhares de estudantes em todo o mundo escolhe- ram por cursar disciplinas nas áreas biológicas de forma humanitária, e muitas escolas concordaram com a idéia, acatando a opção estudantil, por uma educação livre de violência”. Aescusa de consciência à experimen-
tação animal, aliás, não se limitou ao Es- tado da Califórnia, nos EUA. Em 1993, na Itália, surgiu um diploma federal
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