GAZETA RUSSA WWW.RBTH.RU SEGUNDA-FEIRA, 4 DE OUTUBRO DE 2010
SUPLEMENTO COMERCIAL
Opinião
QUALIDADE ANTES DE QUANTIDADE A
Artem
Zagorodnov GAZETA RUSSA
lguns observadores da Rússia não se cansam de repetir que o país enfrenta
uma “crise demográfi ca”. Re- centemente, a divisão russa da emissora de rádio BBC ad- vertiu em tom agourento que “a Rússia está morrendo ra- pidamente”. O autor chegou afi rmar que a população de- crescente vai debilitar a po- sição internacional e até al- terar as fronteiras do país. Com a previsão do censo dos Estados Unidos de que a po- pulação mundial atingirá entre 8,5 bilhões e 10 bilhões em meados do século e um suprimento cada vez menor de recursos naturais, eu diria que países com menos, e não mais, bocas a alimentar, pe- tróleo para consumir e água potável para beber estarão numa posição privilegiada. A Rússia seguramente tem abundância de recursos: vasto território, água potável (detém 20% do suprimento mundial só no lago Baikal), fl orestas intermináveis, próspero mer- cado agrícola, petróleo e gás, população instruída e arma- mento nuclear para se defen- der. Poderia, portanto, ser um dos países mais bem equipa- dos para enfrentar futuras cri- ses ambientais.
Mas – insistirão os críticos – a questão não é o número de residentes, e sim a força de trabalho decrescente, que im- pedirá o crescimento econô- mico nas próximas décadas.
Declínio demográfico russo é apontado como desvantagem, mas pode ser positivo diante da escassez de recursos naturais e de uma força de trabalho qualificada
É aí que a recente política do governo, que parece ter su- cumbido à histeria que cerca o tema, gera motivos de pre- ocupação.
Quando era ainda vice-pre- miê, o atual presidente Dmi- tri Medvedev apoiou a apro- vação de uma série de medidas para reverter ten- dências demográfi cas nega- tivas: multas de trânsito mais severas para reduzir o índi- ce de mortalidade nas rodo-
vias, uma batalha contra o consumo de álcool e maiores investimentos nos programas de saúde. Como resultado, em 2009 a população russa cresceu pela primeira vez e, depois de cerca de dois anos do lançamento do projeto, a expectativa de vida masculina aumentou, se- gundo a Agência Estatal de Estatística da Rússia. Desde então, o Estado tam- bém vem distribuindo pre-
miações de aproximadamen- te US$ 12 mil para mães que têm mais de um filho. Eu diria, porém, que, além de pagar os cidadãos para que tenham mais fi lhos, o gover- no deveria dedicar-se à me- lhoria da produtividade. Esse indicador permanece critica- mente baixo, equivalendo a apenas 16% daquele da União Europeia, segundo a empre- sa Capital Partners. Entre as propostas que o go-
verno deveria seguir para de- senvolver de modo conside- rável a economia russa, o padrão de vida e a infl uência global estão: • Fazer contato com a Diás- pora no exterior: poucos rus- sos no exterior estão dispos- tos a mandar seus fi lhos – os quais geralmente têm o ta- lento crítico, a experiência prática e o entusiasmo geren- cial de que a Rússia carece desesperadamente – sequer para visitar, menos ainda morar num país onde podem ser apanhados de surpresa na rua e jogados no exército. Isso os deixa com a escolha de abrir mão da cidadania russa ou evitar totalmente o país. O Estado deveria emendar a legislação sobre o recruta- mento militar e a residência para atrair cidadãos talen- tosos de dupla cidadania. • Encorajar operários estran- geiros altamente especializa- dos, principalmente gerentes, a viverem e trabalharem no país. Qualquer expatriado que more em Moscou pode relatar histórias de terror quanto à obtenção de resi- dência e uma permissão legal de trabalho. Embora o Esta- do recentemente tenha feito esforços no sentido de faci- litar as regras de concessão de visto para trabalhadores altamente qualifi cados, muito mais pode ser feito. Um re- latório de 2009 da revista de negócios McKinsey Quarter- ly afi rma que 80% do abis- mo de produtividade da Rús- sia em relação aos Estados Unidos deve-se simplesmen- te ao mau gerenciamento.
do petróleo super-ricos e mais de uma centena de milhões de pobres. No entanto, ape- sar de o país contar mais bi- lionários, em dólares, do que qualquer outro BRIC – o bloco econômico dos gigantes Bra- sil, Rússia, Índia, China - a renda do país é também mais equitativamente distribuída do que nos Estados Unidos, por exemplo. O coefi ciente de Gini, medi- da que avalia o nível de de- sigualdade na distribuição de renda num país, calcula tam- bém o conceito de riqueza. Se o comunismo tivesse funcio- nado, por exemplo, então todo o mundo ganharia igual, o que resultaria num coefi ciente de Gini zero. Já numa socieda-
O MENOS DESIGUAL DOS BRIC A
Ben Aris
BUSINESS NEW EUROPE
imagem convencio- nal feita da Rússia é a de um país com uns poucos barões
de perfeitamente desigual, em que uma única pessoa tem todo o dinheiro, o coefi ciente de Gini seria 100. Na Rússia, os ricos certamen- te fi caram muito mais ricos nos últimos 10 anos e sua bem relacionada elite abriga algu- mas das pessoas mais abas- tadas da Terra. No entanto, o boom econômico desta déca- da, iniciado durante o man- dato de presidente de Vladi- mir Putin (e auxiliado pela alta do petróleo), fez os po- bres enriquecerem ainda mais rapidamente. Em dólares, o PIB da Rússia cresceu cerca de 7,5 vezes na última déca- da, subindo de cerca de US$ 200 bilhões para US$ 1,5 tri- lhão. Ao mesmo tempo, a média dos salários aumentou 14 vezes em relação ao mesmo período, de US$ 50 para US$ 700 mensais. Liam Halligan, economista da empresa de ge- renciamento de capital espe- cializada no mercado russo Prosperity Capital Manage-
ment, afi rma que “dessa ma- neira, a proporção do PIB po- tencializada pela força de trabalho cresceu muito. Al- guns russos hoje conhecidos fi caram muito ricos não com o trabalho, mas com o capi- tal. No entanto, não tiraram esse capital de outras pesso- as, mas do Estado”. O coefi ciente de Gini da Rús- sia subiu de 39,9 em 2001 para 42,3 em 2008 – um aumento menor que o dos EUA e abai- xo de qualquer outro país do BRIC (46,9 da China, 53,5 da Índia e 57 do Brasil, segundo a CIA).
A revolução imobiliária Um dos motivos pelos quais a Rússia tem se saído tão bem no coefi ciente de Gini é que todo cidadão do país ganhou um apartamento depois do colapso da União Soviética. O problema é que até recen- temente ninguém podia usar o capital representado por essa posse, literalmente preso
em tijolos e argamassa. Mas com o volume de emprésti- mos sob hipoteca dobrando todo mês desde o começo do semestre, essa riqueza está se tornando rapidamente aces- sível a um número crescente de russos.
O efeito desse rápido cresci-
Na última década, renda dos russos mais pobres cresceu mais rápido que a dos ricos
mento na riqueza das massas tem sido dramático. Se o mesmo crescimento ocorres- se no país de Barak Obama, a renda per capita dos Esta- dos Unidos subiria dos atu- ais US$ 40 mil, segundo a CIA, para US$ 560 mil nos próximos oito anos. Qualquer presidente que promovesse esse tipo de aumento de ri-
queza não só seria reeleito, como canonizado. Essa imen- sa transformação criou uma crescente classe média na Rússia quase da noite para o dia.
Quando Putin lançou seu plano de reforma a longo prazo, preconizou que 60% da população ingressaria na clas- se média até 2020. Mas, se- gundo um relatório divulga- do pelo principal banco de investimento russo, o Troika Dialog, a Rússia já estaria lá no início do segundo semes- tre deste ano. O Troika afi rma que a classe média (defi nida pela renda per capita de mais de US$ 6 mil anuais) já re- presenta 68% da população, contra 31% no Brasil, 13% na China e 3% na Índia. Qual- quer que seja a defi nição de classe média escolhida, ainda está claro que a distribuição de riqueza russa é muito mais equitativa do que em qualquer outro dos BRIC, e por uma grande diferença.
07
• Desenvolver a assistência social de modo que os mais de 730 mil órfãos russos pos- sam tornar-se membros pro- dutivos da sociedade na vida adulta. O site
Iorphan.org informou que apenas 10% dos órfãos da Rússia se tor- nam cidadãos íntegros, en- quanto a maioria descamba para as drogas, a violência e o suicídio. À parte a óbvia necessidade humana de evi- tar essa tragédia, um melhor planejamento familiar e po- líticas de adoção poderiam salvar esse segmento da so- ciedade. • Desenvolver programas para integrar portadores de deficiência à sociedade. A economia da “inovação” pre- gada por Medvedev não se baseia em fábricas ou no campo. Muitos trabalhos de pesquisa e desenvolvimento podem ser desempenhados em casa, pela internet, e ga- rantir uma conexão de inter- net grátis de alta velocidade para incapacitados físicos nas principais cidades russas e provê-los de cursos univer- sitários online são coisas que podem ser feitas já. Novas redes de transporte e edifí- cios também podem ser cons- truídos levando em conta a acessibilidade. O esforço por modernização de Medvedev é a melhor opor- tunidade para finalmente mudar a discussão da demo- grafi a russa – de quantidade para qualidade.
Artem Zagorodnov é editor executivo de Russia Beyond The Headlines.
Sinais de inquietação Liberada da necessidade de simplesmente sobreviver, a classe média emergente tipi- camente se torna mais polí- tica, uma vez que tem muito a perder com um mau gover- no. A população russa tem su- portado silenciosamente as
A classe média emergente se torna mais política, já que passa a ter muito a perder
dores da transição pela maior parte dos últimos 19 anos, mas desde o ano passado come- çou a vir à tona uma varie- dade de protestos. Manifestantes do movimento Estratégia 31 se reúnem no trigésimo primeiro dia de todo mês de 31 dias contra a re- cusa do Estado em permitir livres demonstrações de pro-
testo, garantidas pelo artigo 31 da Constituição. O movi- mento dos direitos dos gays ganha força e o Kremlin foi várias vezes constrangido e levado a agir pela pressão dos protestos na blogosfera da Rússia. O mais significante desses exemplos foi a ordem do presidente russo, Dmitri Medvedev, para que a cons- trução de uma rodovia cor- tando a fl oresta de Khimki fosse interrompida, depois de uma série de protestos públi- cos. Tanto Putin como Medvedev estão falando agora da neces- sidade de promover a socie- dade civil. Com o aumento de sua experiência capitalista, o Kremlin agora tenta um jogo delicado: equilibrar o relaxa- mento do controle centrali- zado enquanto monitora a opinião popular.
Ben Aris é editor-chefe do jornal Business New Europe.
CARTAS AO EDITOR DA GAZETA RUSSA
Faltam futebol, hotéis e estradas
Gostei e muito das reporta- gens. Parabéns! Gostaria que nas próximas reportagens tivéssemos algo sobre futebol, hotéis e estra- das. Parabéns mesmo.
Arnaldo Salles LEITOR DA GAZETA RUSSA Meus parabéns!
Li na íntegra todo o contéu- do da Gazeta Russa e apren- di mais sobre o maior país do mundo - a Federação Russa. Por favor, receba os meus sin- ceros cumprimentos pelo ex- celente trabalho, ao divulgar em português informações precisas e atuais sobre a si- tuação social, econômica e ambiental da Rússia. Paulo Galvão Júnior ECONOMISTA
ENVIEM CARTAS PARA A REDAÇÃO DA GAZETA RUSSA EM MOSCOU:
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estrangeiro como professor efetivo pela primeira vez. Acadêmicos russos educados no exterior são extremamen- te raros nas universidades do país e poucas instituições podem se gabar de ter um estrangeiro na folha de pa- gamento. Depois de selado o acordo, porém, tivemos um pequeno problema: descobrir como trazer nosso novo co- lega para o país.
A Rússia é praticamente o único dos países que preza pela pesquisa a não possuir uma categoria de vistos “aca- dêmicos”. Além do mais, até este ano só havia uma única categoria de vistos para todos os pretendentes a trabalhar no país. Uma companhia que desejasse, por exemplo, um advogado estrangeiro treina- do em Harvard, tinha que en- frentar as mesmas compli-
IMPORTANDO CÉREBROS H
Igor Fediukin ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA
á cerca de dois anos, nossa instituição, a Nova Escola de Eco- nomia, contratou um
cações burocráticas para trazer centenas de operários de construção. Como conse- quência, profi ssionais alta- mente especializados muitas vezes obtinham vistos de ape- nas três meses para poderem trabalhar no país e eram for- çados a viajar a um país vi- zinho no final do período para pedir uma nova permis- são de entrada na Rússia. As complicadas e restritivas regras para obtenção de visto tornam mais difícil atrair para o país os melhores ta- lentos do mundo, e isso tem sido um grande obstáculo para qualquer tipo de inter- câmbio acadêmico há muito tempo. A resistência em afrouxar essas regras tam- bém é enorme. Uma grande parte do funcionalismo russo, especialmente a ligada às for- ças armadas, naturalmente encara tal abertura como um convite para que se mandem mais espiões para a Rússia. Outros, incluindo aqueles considerados bastante libe- rais, são contra qualquer re- laxamento unilateral dos re- gulamentos de vistos, o que
Leis de imigração não facilitam a entrada de acadêmicos na Rússia
poderia ser visto como con- cessão e sinal de fraqueza. No entanto, prevalece a ideia de que a capacidade russa em atrair profissionais es- trangeiros altamente quali- fi cados é necessária se o país quiser se modernizar – e a seriedade do problema pa- rece ter sido fi nalmente re- conhecida pelo governo. Emendas inclusas nas leis de imigração no primeiro semes- tre oferecem privilégios aos profissionais estrangeiros chamados “altamente quali- fi cados” (que também são al- tamente pagos, diga-se). Esses novos regulamentos de vistos entraram em vigor há poucos meses, mas, curiosa- mente, não se aplicam a pes- quisadores e professores, que não se encaixam na defi ni-
ção de “profissionais alta- mente qualifi cados” da nova lei, já que não recebem pelo menos dois milhões de ru- blos (cerca de R$ 110 mil) anuais. Novas medidas em discussão voltadas às universidades e aos pesquisadores devem re- solver alguns dos problemas mais urgentes. Entre elas, estão propostas para incluir professores na categoria de “profi ssionais altamente qua- lifi cados”; criar uma opção para a emissão de “vistos aca- dêmicos” em não menos que três dias; permitir que pes- quisadores estrangeiros se desloquem livremente pelo país; permitir que seus espo- sos trabalhem sem a neces- sidade de requisição de uma permissão de trabalho à parte. Embora essas emen- das possam parecer menos revolucionárias, caso sejam introduzidas ajudarão a atrair mais profi ssionais al- tamente qualifi cados para a Rússia e tornarão muito mais fácil a vida daqueles que já estão trabalhando no país. Entretanto, muito mais pre-
cisa ser feito. As regras e os regulamentos de visto ainda estão atravancados por todo tipo de exigências ridículas ou supérfl uas. Para atrair um acadêmico do exterior com diploma de doutorado, por exemplo, ele teria de tradu- zir sua dissertação na tota- lidade e submetê-la a uma nova defesa de tese. Finalmente, existe a questão da implementação do novo regulamento e de fazer com que os consulados russos, co- nhecidos por suas maneiras pouco amistosas, modifi quem sua atitude em relação aos requerentes de vistos. Isso exigiria mudar toda a men- talidade do serviço consular russo, o que levaria um longo tempo. Ainda assim, o mero fato de que o presidente Med- vedev afi rmou no ano passa- do que “nós precisamos deles” (isto é, de profi ssionais qua- lificados do estrangeiro), e não o oposto, oferece algum terreno para otimismo.
Igor Fediukin é diretor de Estudos de Política na Nova Escola de Economia.
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