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Trabalho
Profissionais de alto nível são bem remunerados porque atraem investimentos estrangeiros e trazem inovações para o país.
RACHEL MORARJEE ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA
Houve um tempo em que jo- vens inteligentes que chegas- sem a Moscou falando um russo razoável podiam esco- lher o emprego que quises- sem. Há 15 anos, a economia local crescia mais rápido que as dos países ocidentais e es- trangeiros que poderiam estar servindo café ou tiran- do xerox em uma fi rma de seu país de origem eram co- locados, de uma hora para outra, para administrar grandes empresas. Atualmente, a coisa mudou. As empresas na Rússia, lo- cais ou estrangeiras, contra- tam cada vez mais gerentes russos para administrarem seus negócios e só recrutam expatriados quando eles são profi ssionais altamente es- pecializados. E, nesses casos, paga-se muito bem para ga- rantir a vinda - e a contri- buição - do forasteiro. Um levantamento recente di- vulgado pelo banco HSBC revelou que os estrangeiros que vivem na Rússia são os mais ricos do mundo, sendo que 36% deles ganham mais de US$ 250 mil ao ano (cerca de R$ 36 mil por mês).
Exemplo brasileiro O fi sioterapeuta brasileiro Túlio Menezes, do time de futebol CSKA, é um deles. Ele conta que começou aten- dendo o jogador de futebol Daniel Carvalho, no Sport Club Internacional, em ja- neiro de 2007. Na época, Car- valho jogava pelo time russo e veio se tratar no Brasil. Quando retornou a Moscou, decidiu levar o fi sioterapeu-
SUPLEMENTO COMERCIAL
GAZETA RUSSA WWW.RBTH.RU
SEGUNDA-FEIRA, 4 DE OUTUBRO DE 2010
Renda Pesquisa revela que salário de mais de 36% dos trabalhadores estrangeiros altamente qualificados na Rússia é superior a R$ 36 mil Exilados mais bem pagos do mundo
investimentos Troika Dia- log.
Estrangeiros se encontram em happy hour no John Donn Pub, em Moscou, conhecido por reunir os “expats” da cidade Quem ganha os melhores salários
ta junto. “O clube então me pediu para trabalhar com o goleiro Igor Akinfeev, que tinha feito uma cirurgia de cruzado também”, lembra Menezes. Depois disso, ele montou um projeto de melhorias para o departamento médico do clube, logo aprovado, e foi contratado como funcioná- rio da casa. “Hoje, em Mos- cou, o único clube que tem uma estrutura médica boa além do CSKA é o Spartak, que também tem um fi siote- rapeuta brasileiro”
, afi rma. FONTE: BANCO HSBC
No entanto, qualquer opor- tunidade de gerenciamento júnior ou intermediário em
Lei Novas medidas facilitam importação de cérebros
Kremlin abre as portas ao trabalho de estrangeiros
Imigração de profissionais qualificados tende a atrair investimentos externos. Essa é a aposta do governo para reciclar o mercado.
TIM GOSLING ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA
A política de imigração russa para operários altamente es- pecializados é hoje uma das mais tolerantes do mundo. O recrutamento de cientistas e altos executivos, principal- mente da Europa, está longe de representar uma abertura despretensiosa. Pelo contrá- rio, é um investimento do Kremlin para acelerar a mo- dernização da economia. Em maio deste ano, o presi- dente Dmitri Medvedev deu o grito de "modernização ou morte". Uma nova legislação foi aprovada para facilitar a imigração de trabalhadores al- tamente especializados, com experiência e talento, capazes de ajudá-lo no novo projeto. E, com a importação de ad- ministradores e especialistas pelas empresas multinacio- nais, mais investimentos es- trangeiros serão atraídos para a Rússia. Dentro do país, no entanto, existe uma necessidade cres- cente de gerentes experien- tes, que ajudem a aumentar a efi ciência, a produtividade e a inovação, principalmente agora que o governo de Med- vedev se prepara para colo- car em prática o "Vale do Si- lício Russo", um projeto avaliado em US$ 2 bilhões e que já começa a ser constru- ído em Skolkovo, nos arredo- res de Moscou. Enquanto o desenvolvimen- to da indústria de alta tecno- logia no país tem estampado
melhor de tudo é que o ter- reno já está preparado: “As coisas parecem estar corren- do bem. As autoridades estão de esforçando muito para ga- rantir que a burocracia en- tenda esse novo processo.”
Benefícios Para encorajar a vinda des- ses profi ssionais, o governo russo criou programas de in- centivo à imigração de pes- soal qualifi cado, que seguem o modelo usado por Reino Unido, Canadá e Austrália. Pela nova lei, os empregados qualifi cados e suas famílias recebem um visto de três anos, o que torna o processo de imi- gração um dos mais fáceis do mundo. Para os empregado- res, a vantagem é a atual isen- ção da cota anual do Serviço Federal de Migração. Para os trabalhadores estran- geiros que não se qualifi cam como altamente especializa- dos, as empresas interessadas têm só o mês de janeiro para requerer permissão ao gover- no para empregá-los, sem ne- nhum recurso para revisão durante o resto do ano. Caçadores de talentos como Nikita Prokofi ev, da agência Odgers Berndtson, afirmam que o plano de instigar as com- panhias a trazerem os profi s- sionais mais valiosos está fun- cionando. E, ao mesmo tempo, o mercado evoluiu e também está em um momento de con- tratar cada vez mais funcio- nários locais.
Estrangeiro toca acordeão, instumento tradicional na música local, em frente a faixa onde se lê, em cirílico, “estilo russo”
as manchetes de todos os jor- nais, o mercado para reputa- dos cientistas russos torna-se cada vez menos atrativo. Segundo relatório da IBM pu- blicado no mês passado, as ins- tituições de pesquisa científi - ca do país estão entre as melhores do mundo, mas as escolas de administração ainda estão abaixo do nível do mer- cado. Pela pesquisa, 59% das empresas apontam a mão-de- obra como obstáculo signifi - cativo ao desenvolvimento. Gerentes estrangeiros podem ser a solução, já que possuem formação de qualidade e do-
minam as técnicas ocidentais para a alta tecnologia que serão usadas no projeto de modernização, acredita Lilit Geovorgian, da consultoria IHS Global Insight.
O especialista em migração da PricewaterhouseCoopers, Guenadi Odarich, defende que esses profi ssionais tam- bém podem se transformar em modelos para os funcio- nários russos, o que ajudaria a moldar as futuras gerações tanto em talento quanto em novas atitudes. Segundo ele, o apetite por tais candidatos é grande, mas o
"Agora muitas companhias preferem contratar russos”, ex- plica ele. “Há 15 anos, o fun- cionário especializado que se buscava era uma pessoa bi- língue com um domínio bá- sico de fi nanças, mas agora as empresas só querem em- pregados seniores com qua- lidades muito específi cas.” Isso acontece não apenas de- vido ao forte desejo de empre- gar pessoal que conheça a cul- tura do comércio local, mas também à própria defi nição do empregado altamente qualifi - cado, que recebe até 2 milhões de rublos por ano (cerca de R$ 9,5 mil por mês). Enquanto os salários no mercado interno ainda estão se recuperando da crise econômica, os trabalha- dores qualifi cados e experien- tes de fora esperam por uma premiação para se transferi- rem.
empresas russas foi elimina- da. Segundo executivos mos- covitas, agora os estrangei- ros só são contratados se souberem como viver na Rús- sia, falar a língua e se não apresentarem grandes cus- tos de transferência. “Não acredito na contrata- ção de expatriados na Rús- sia. Antes a gente dependia de estrangeiros para enten- der melhor os detalhes de uma área, quer no setor de corretagem ou no de restau- rantes, hoje não”, afirma o empreendedor Bernard Su- cher, um dos fundadores da cadeia de restaurantes Star- light Diners e do banco de
À medida que os consumido- res russos se tornaram mais sofi sticados, os caçadores de talentos passaram a buscar pessoal qualifi cado dentro do país. Começou a aparecer um número cada vez maior de ge- rentes russos que já haviam trabalhado no exterior ou que serviram companhias estran- geiras operando na Rússia. O diretor da empresa de re- crutamento Acuris, Igor Kli- mov, explica que é muito mais fácil para um russo adquirir a confi ança de empregados e empresas estrangeiras. “Ainda são necessários estran- geiros no setor de investimen- tos, mas na economia real a gente quase não recebe pedi- dos para selecionar gerentes de outras nacionalidades”, diz. Sucher afi rma ainda que a procura por russos que te- nham vivido no exterior é grande porque eles, além de entenderem as exigências do mercado internacional, são bons para negociar segundo a cultura de negócios do país. Por outro lado, é preciso pagar um alto preço para atrair esses russos de volta e, mesmo assim, eles não são sufi cien- tes para atender à demanda. Com isso, abre-se espaço para estrangeiros em áreas-chaves do mercado.
Mercado atrativo Além disso, as fi rmas russas que buscam ser respeitadas nos mercados internacionais têm nas contratações de es- trangeiros um motivo espe- cial: assegurar aos investido- res que a empresa não está manchada pela corrupção que assola o país. Até 2008, companhias que quisessem levantar dinheiro com um pacote de novas ações ou com um acordo acionário precisavam de advogados trei-
nados em inglês para falarem com banqueiros nos Estados Unidos e no Reino Unido, diz Nikita Prokofi ev, sócio da em- presa de recrutamento Odgers Berndtson. Hoje, os advogados bilíngues fazem diferença, mas a de- manda mesmo é por profi s- sionais russos com experiên- cia internacional, observa. Mas conforme os mercados de capital forem retomando forças, a necessidade de ad- vogados treinados no estran- geiro tende a crescer de novo. Então, Moscou pode ser mais uma vez um local atrativo. O percurso para o topo da car- reira profi ssional é muito mais curto na capital russa que em outros países. “Conheço vários advogados que me disseram: em meu país eu seria só mais um dentre cem candidatos, mas aqui eu sou um astro”, diz Prokofi ev. Outra área em que profi ssio- nais estrangeiros podem exi- gir bons salários e obter van- tagens atraentes é a de gerenciamento de projetos no setor de softwares.
A Rússia tem uma abundân- cia de programadores de sof- tware altamente treinados, mas faltam gerentes de pro- jetos e negócios com mais de dez anos de experiência. “Um russo nessa área pode escolher à vontade onde quer trabalhar”
, afi rma a presiden-
te da EDventure Holdings Es- ther Dyson. Mas para que os estrangeiros tenham realmente espaço na Rússia, afi rma Igor Klimov, da Acuris, é preciso que as companhias do país invistam e se expandam no exterior. Até agora Moscou não deu espaço para profi ssionais que estejam dispostos a arriscar e deixar de lado os atrativos oferecidos por Londres, Nova York e até mesmo São Paulo.
Produção Recursos humanos influem mais que tecnologia
O grande desafio da produtividade
Empresas russas investem em tecnologia para aumentar o nível de produção, mas problema pode estar na mão-de-obra ineficiente.
BEN ARIS BUSINESS NEW EUROPE
Se tudo sair como o governo planeja, os bancos russos, de preferência instalados em re- luzentes arranha-céus, vão ser o coração dos mercados fi nanceiros globais, e o país se tornará o maior mercado consumidor da Europa, com cerca de 60% da população na classe média. Fantasia? Sim e não. É prová- vel que a Rússia não concre- tize todas essas previsões am- biciosas do governo de Dmitri Medvedev, mas certamente tem potencial de ir mais longe do que muitos podem pen- sar. Essa é uma declaração ou- sada, ainda mais no atual ce- nário de pós-crise, mas o país acaba de estabelecer um novo ciclo de aumento da produti- vidade, o que leva o governo a apostar em uma década de forte crescimento. O momen- to é propício. Os fl uxos de in- vestimento e o crédito bancá- rio se mantêm restritos e aumentar a produtividade sig- nifi ca imensos lucros a baixo custo.
Ganhos produtivos Durante a expansão de 2008, pouca atenção foi dada à pro- dutividade. A maioria das companhias estava focada apenas em se ampliar o mais rápido possível e as altas mar- gens de lucro do jovem mer- cado tornavam o quesito da efi ciência irrelevante. A pro- dutividade na Rússia então se limitou a apenas 16% da- quela da União Europeia. Agora, a possibilidade de ga- nhos com pequenas melhoras no gerenciamento é realmen- te muito grande. “Se apenas
Melhoras no gerenciamento podem aumentar PIB em 150%
Operário russo leva quatro dias para fazer um carro que no Ocidente faz-se em poucas horas
10% da população ativa tra- balhasse no nível médio de efi ciência que vemos nos Es- tados Unidos, a produção da economia russa cresceria 140% e o Produto Interno Bruto, 150%”
, afi rma Alexan-
der Idrisov, sócio do grupo eu- ropeu de análise de mercado Strategy Partners. Nesta fase de orçamento curto, as companhias viram que um operário russo pode custar uma fração do que custa um ocidental. No en- tanto, essa economia é des- perdiçada quando se percebe que eles levam quatro dias para fazer um carro, enquan- to a maioria das fábricas oci- dentais pode dar conta do ser- viço em poucas horas.
Saindo do buraco A longo prazo, a única ma- neira de a Rússia manter o crescimento estável é melho- rando sua produtividade. A maioria das pessoas pres-
supõe que a baixa efi ciência no país é fruto exclusivo de fábricas obsoletas, mas Idri- sov defende que culpar a tec- nologia antiquada é um “mito” e que o principal problema é simplesmente o mau geren- ciamento.
Segundo dados de um rela- tório recentemente divulga- do pela consultoria global de empreendimentos McKinsey, a administração inefi ciente responde por 80% da diferen- ça entre as produtividades da Rússia e dos EUA. A pesquisa revela ainda que alguns setores da economia russa já estão no mesmo nível que empresas internacionais, principalmente no setor do aço. As áreas de construção, sistema bancário e eletricida- de, embora estejam em níveis mais baixos que os norte- americanos, também se des- tacam por serem mais pro- dutivos do que outros setores da economia.
Diante desses dados, fi ca claro que somente quando o geren- ciamento russo enfrentar essas questões é que a tecno- logia, a menina dos olhos do presidente Medvedev, poderá começar a desempenhar seu papel.
KIRILL TULIN_KOMMERSANT
NIKOLAY TSYGANOV_KOMMERSANT
ANNA ARTEMEVA
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