02
Política e Sociedade
SUPLEMENTO COMERCIAL
GAZETA RUSSA WWW.RBTH.RU
SEGUNDA-FEIRA, 4 DE OUTUBRO DE 2010
Independência Dois anos após conflitos com a Geórgia, opinião abecasiana ainda está dividida
Os dois lados da influência russa na dissidente Abecásia
Presença russa trouxe dinheiro e empregos para a Abecásia, mas habitantes se preocupam com a perda da soberania.
ANNA NEMTSOVA ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA
Do mosteiro “Novi Afon” é possível ver barcos militares russos de patrulha de alta ve- locidade guardando a costa do mar Negro da Abecásia. É um sinal de que essa repúbli- ca autônoma na região do Cáucaso, que sempre atraiu o interesse de impérios, do ro- mano ao soviético, ainda é ter- ritório contestado. Em 2008, depois da guerra entre a Rússia e a Geórgia, este enclave montanhoso, co- berto de natureza subtropi- cal selvagem e pontuado por praias paradisíacas, teve sua indepência reconhecida por Moscou. Desde então, pouco se importou com o fato de que apenas a Nicarágua, a Vene- zuela e um minúsculo ponto no Oceano Pacífi co, a nação- ilha de Nauru, apoiaram a de- cisão. Sob a ótica europeia e norte-americana a re- gião ainda é um território so- berano georgiano. Foram necessários apenas dois anos para que a Rússia estabelecesse sua presença militar e comercial na Abe- cásia. E, até hoje, milhares de soldados e ofi ciais da Agên- cia de Segurança Federal ainda ocupam as dependên- cias recém-pintadas da base de Gudauta, um edifício de três andares localizado no li- toral norte da região. Um mo- derno sistema de defesa aérea, com mísseis S-300, também funciona na base de Gali. Ca- minhões cor laranja com em- blemas militares levantam poeira dia e noite enquanto transportam areia e cascalho para as instalações militares na fronteira com a Geórgia. “Nada de fotos ou a gente atira”, grita um militar para- do diante de um trem carre- gado de tanques e veículos blindados nos arredores de Gudauta.
A vigilância parece ameaça- dora, mas para alguns abe- cásios o cenário de domina- ção é exatamente de que necessitam. É sinal de bon- dade e proteção russas. “Cha- mavam a gente de buraco negro. Agora, a gente é abra- çado pelos maiores investido- res russos e por fi guras pode- rosas”, explicou o chefe da administração regional de Gagra, Astamur Ketsba. A região dissidente, que ocupa uma área de 8,6 mil km2, tor- nou-se isolada e decadente desde a rápida e sangrenta guerra contra as forças geor- gianas em 1993. Até pouco
NÚMEROS
200 250 100
Presença de seguranças particulares da Rússia aumentou significativamente na região... ... e bases militares russas abrigam milhares de soldados
siosos executivos russos que planejam construir na costa abecasiana prédios com al- guns andares a mais do que a lei permite. “Quando cortarem o primei- ro cedro centenário ou cons- truírem acima dos três anda- res permitidos em Gagra, toda a população sairá às ruas para protestar”
, afi rma. Propriedades em balneários turísticos estão na mira de empresários russos
tempo atrás, era conhecida como um “confl ito congela- do” pós-soviético, ou seja, uma região separatista que não faria mais parte da Geórgia, apesar das reivindicações, mas também não seria inde- pendente. Era uma espécie de território no limbo.
Abandonados e sem manu- tenção, os telhados dos gra- ciosos palácios do século 19 do Príncipe Oldenburg eram castigados pela chuva e pela neve. As brancas estátuas de mármore e os lagos redondos no jardim botânico ao longo da orla marítima de Gagra eram dominados pelo musgo. Hoje, as autoridades locais fazem de tudo para que os russos comprem e restau- rem os imóveis danifi cados, antigos e modernos.
Investimentos O presidente russo Dmitri Medvedev, que recentemente visitou a região, e o primeiro-
Há temor de que a região, que busca se separar da Geórgia, seja engolida pelo gigante vizinho
ministro Vladimir Putin pro- meteram canalizar bilhões de dólares para dar apoio à in- dependência local, impulsio- nando a economia e fortale- cendo a infraestrutura e o poderio militar. Além disso, tanto Putin quan- to o recentemente demitido prefeito de Moscou, Iuri Lu- jkov, estão investindo em pro- jetos particulares na região. O primeiro-ministro supervi- siona a reconstrução do bal- neário de Pitsunda, na costa do mar Negro, famoso por seus pinheiros centenários e pelos resorts que atraem mui- tos turistas na temporada de verão. A infl uência é tanta que os habitantes apelidaram o
Além de Moscou, governos de apenas três outros países reconheceram a independência
local de “Putin City”. Já Lu- jkov, colocou US$ 70 milhões em uma nova construção nos arredores de Gagra, que, ine- vitavelmente, foi chamada de “Projeto Moscou”. Ainda assim, nem todos os abe- casianos se deixam levar pelos investimentos e vestígios dei- xados pelos russos. A arquite- ta Tamara Laksba, por exem- plo, é uma feroz defensora dos encantos provincianos de Gagra e Pitsunda e teme que a região venha a ser engolida pelo gigante vizinho. Segundo ela, nos dois últimos anos, a experiência foi de “viver na linha de frente”. Ela se refere não ao combate aos georgianos, mas aos an-
Críticas Os interesses da Rússia na Abecásia, entretanto, vão muito além de balneários e edifícios de apartamentos. A companhia de petróleo Ros- neft, uma importante estatal russa, por exemplo, mon- tou um escritório na capital Sukhumi e anunciou o inves- timento de US$ 32 milhões em pesquisas geológicas ao largo da costa do mar Negro.
“Nós nos sentimos seguros. Nós nos sentimos muito bem na Abecásia”, afi rmou o prin- cipal porta-voz da Rosneft, Vladimir Voevoda, ao comen- tar as atividades da compa- nhia na região. Depois de a secretária de Es- tado norte-americana Hilla- ry Clinton visitar a capital ge- orgiana Tbilisi e afi rmar que a Abecásia é um "território ocupado", houve quem defen- desse as autoridades russas. O proprietário da El Petroleum, Serguei Klemantovich, suge- riu que Moscou simplesmen- te ignore as críticas às inter- venções. O próprio Klemantovich, que explora pedregulhos na Abe- cásia e exporta ferro-velho do porto de Sukhumi para a Eu- ropa, ignora os protestos da Geórgia. Em 2009, ele teve um navio com 20 toneladas de carga confi scado por patru- lhas marítimas georgianas,
mas voltou a exportar neste ano, confiante na proteção vinda da Rússia. “As bases mi- litares russas vieram para fi car e oferecem segurança para nós”, ressaltou. “Em breve, a fronteira entre a Rússia e a Abecásia será tão insignifi cante quanto aquela entre a Rússia e a Bielo-Rús- sia”
, afi rmou o presidente da comissão para antigos Esta- dos russos na Câmara dos De- putados, Konstantin Zatulin, em uma tentativa de mostrar aos investidores russos que eles podem se sentir confi an- tes em relação à parceria.
Soberania No entanto, a insinuação de que o país está se tornando um vassalo da Rússia deixa parte da população re- voltada. O ministro da Defesa da Abe- cásia, general Mirab Kishma- ria, faz questão de dizer que, junto com outros ofi ciais, der- ramou sangue para conquis- tar a independência do Esta- do. “Os deputados russos, por mais que tentem, nunca vão ver o dia em que a Abecásia eliminará seu exército inde- pendente”
, afi rmou.
Kishmaria diz que aprecia todo o equipamento militar que recebeu da Rússia e a crescente presença de solda- dos russos na região, mas pro- mete ampliar o exército abe- cásio. “Aqueles que querem desmilitarizar a Abecásia não estavam aqui durante a guer- ra, não sabem que o nosso povo é uma irmandade de guerreiros”, disse. A chegada de tantas tropas e seguranças russos e o corte de pessoal abecásio protegen- do as fronteiras provocou certa tensão na região. O coronel Lavrenti Mikvabia,
por exemplo, que há anos pa- trulha a fronteira de Gali com a Geórgia, afi rma que os guar- das de fronteira foram demi- tidos e substituídos por mi- lhares de soldados do Serviço Federal de Seguran- ça (FSB) da Rússia. Segundo o coronel, os ofi ciais estão ressentidos e alarma- dos porque ouviram dos rus- sos que em breve já não ha- verá mais nenhum abecásio nessa função.
“Eles estão cometendo um enorme e insensato erro ao retirar os militares abecásios de nossa própria fronteira”, criticou Mikvabia. “Com isso, os russos mostram que não têm nenhum respeito por nós. Esta é a minha terra, posso defender este lugar melhor do que qualquer soldado russo, se for preciso.” Em Tbilisi, as autoridades também estão descontentes e o presidente da Geórgia, Mi- khail Saakashvili, mandou suas agências governamen- tais fazerem um levantamen- to das propriedades georgia- nas vendidas aos russos pelos abecásios. “Quero dar um aviso a al- guns russos imprudentes: vocês estão comprando ile- galmente casas na Abecásia, em território georgiano ile- galmente ocupado”, declarou Saakashvili. O ministro para a reintegra- ção étnica da Geórgia, Temur Iakobashvili, declarou à Ga- zeta Russa que 500 mil pes- soas desalojadas pelo confl i- to de 1993 ainda vão reclamar suas propriedades na Abecá- sia um dia. “Putin, Lujkov e a Rosneft estão infringindo a lei geor- giana ao trabalharem em ter- ritório ocupado nosso” mou Iakobashvili.
, afi r-
mil habitantes é a população aproximada da Abecásia
mil georgianos foram expulsos da região na guerra de 1992-93
milhões de dólares foram investidos pelo governo russo na Abécasia durante 2010
ENTREVISTA SERGUEI SHAMBA
Líder abecasiano busca segurança e reconhecimento
O primeiro-ministro da Abecásia defendeu o auxílio militar e econômico de Moscou e negou ocupação pelo vizinho em entrevista à Gazeta Russa.
FRANCISCO MARTINEZ ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA
As ruas da Abecásia estão cheias de cartazes sobre os 200 anos de relações com a Rússia. O senhor não acha que isso confirma que a região está ocupada por Moscou? Isso não é verdade. O parla- mento russo reconheceu nossa independência. O exér- cito russo pode permanecer em nosso território para ga- rantir a segurança, inclusive
mantendo suas bases mili- tares. Mas quem achar que isso é ocupação também deve achar que muitos países eu- ropeus são ocupados pelos Estados Unidos.
Quais são as suas prioridades hoje?
Segurança, é claro. Depois disso, o reconhecimento in- ternacional. Agora que a Rússia garante nossa esta- bilidade, podemos nos con- centrar no desenvolvimento econômico e tentar atrair in- vestimentos internacionais.
O senhor espera que outros países reconheçam a Abecá- sia em breve?
Estamos trabalhando para isso em diversas regiões, principalmente na América Latina, no Oriente Médio e nos países da área do Pací- fi co. Além disso, estamos de- senvolvendo boas relações com a União Europeia, mas com alguns desses a coope- ração é mais difícil, pois são membros da OTAN, que é a favor da Geórgia e está sob grande infl uência dos Esta- dos Unidos.
Há diferenças entre a indepen- dência da Abecásia e a de Ko- sovo? A Abecásia tem mais direi- to à independência do que Kosovo. Ao contrário deles,
NACIONALIDADE: ABECÁSIO IDADE: 59 POSTO: PRIMEIRO-MINISTRO
nós libertamos nosso terri- tório por conta própria. Em Kosovo foi tudo feito pela OTAN. Além disso, no últi- mo milênio nós fomos um Estado no Cáucaso, o mais poderoso da região. Kosovo, pelo contrário, sempre foi um território de trânsito reivin- dicado pela Sérvia e pela Al- bânia.
O que está sendo proposto à Geórgia atualmente? Atualmente nossos contatos
com Tbilisi se resumem à busca de coexistência pací- fi ca e à promoção das rela- ções de boa vizinhança, além de mantermos negociações em Genebra. Mas nosso povo lembra bem de nossas fábri- cas e vidas destruídas. Nosso povo estava sendo assassi- nado e ninguém ligava para isso. Hoje estamos provando ao mundo que podemos nos desenvolver economicamen- te e de modo democrático. Realizamos eleições trans- parentes, o que foi testemu- nhado por muitos observa- dores internacionais.
A maior parte dos investimen- tos estrangeiros na Abecásia tem origem russa… Os empresários russos são bem-vindos aqui. Aguarda- mos, porém, os investidores europeus, mas a falta de re- conhecimento ofi cial nos pre- judica. Os primeiros repre- sentantes do mercado internacional, entretanto, já estão chegando ao país. São companhias de turismo aus- tríacas e turcas. Ancara é o nosso segundo maior parcei- ro comercial, depois de Mos- cou. Hoje 80% do nosso co- mércio é feito com a Rússia.
Blogs viram arma útil para denunciar
CONTINUAÇÃO DA PÁGINA 1
O tablóide popular Komsomol- skaia Pravda, por exemplo, que normalmente se ocupa de re- ality shows da TV, escândalos de celebridades e esportes, pu- blicou uma matéria detalhan- do as experiências da bloguei- ra, o que provocou uma discussão ainda maior. Outra que ressaltou o novo papel dos blogs foi a jornalis- ta Daisy Sindelar, que recen- temente falou sobre o uso da blogosfera por ativistas rurais na hora de proporcionar so- corro às vítimas dos incêndios na Rússia. Já Olga Serebrianaia, que cobre a blogosfera russa para o serviço russo da Rádio Free Europe/Rádio Liberty (RFE/ RL), deu destaque à platafor- ma LiveJournal, ao site pozhar. ru e aos blogs de Igor Cherski e Elizaveta Glinka, médica do Fair Help que mantém o blog Doctor Liza. Serebrianaia diz que a proli- feração dessas ferramentas deu
uma grande contribuição du- rante os incêndios de grandes proporções que atingiram a Rússia recentemente e ajudou a resgatar a unidade cívica que havia sido desgastada nas duas últimas décadas com o colap- so soviético. Também é possível perceber que, cada vez mais, a oposição no país tem deixado de focar em fi guras públicas ou parti- dos para abordar mais ques- tões como protestos dos mo- toristas ou campanhas contra a corrupção policial. A blogos- fera russa contribui colocan- do lenha na fogueira. O escoamento das notícias da internet para as mídias con- vencionais é muito signifi ca- tivo e mostra que os internau- tas continuam a se afastar de uma elite urbana "dona da ver- dade".
A comunidade virtual do Li- veJournal começou a preen- cher essa falha há muito tempo na Rússia. Agora a história está sendo escrita pelas mãos de cidadãos conectados.
ITAR-TASS
URY KOZYREV(3)
Page 1 |
Page 2 |
Page 3 |
Page 4 |
Page 5 |
Page 6 |
Page 7 |
Page 8