GAZETA RUSSA WWW.RBTH.RU SEGUNDA-FEIRA, 4 DE OUTUBRO DE 2010
SUPLEMENTO COMERCIAL
BRIC Relações bilaterais Iniciada em 1812, parceria entre Brasil e Rússia agora engloba produtos de alta tecnologia Dois séculos de negócios
História, quadro atual e perspectivas do desenvolvimento das relações comerciais e econômicas entre Rússia e Brasil.
SERGUEI BALDIN REPRESENTANTE COMERCIAL DA FEDERAÇÃO DA RÚSSIA NO BRASIL
O comércio entre a Rússia e o Brasil começou em 1812, quan- do atracaram pela primeira vez na Rússia os navios de um próspero empreendedor por- tuguês, vindos do outro lado do oceano. Em 1814 chegaram ao Brasil os primeiros navios mercantes russos. O início das relações diplomáticas entre nossos países, em 3 de outu- bro de 1828, inaugurou o in- tercâmbio comercial e econô- mico da Rússia não só com o Brasil, mas com todos os Es- tados da América Latina. No século 20, as relações co- merciais permanentes entre a União Soviética e o Brasil desenvolveram-se de modo mais ativo após a assinatura, em 1959, do primeiro acordo comercial e de pagamentos. A participação da União So- viética na balança do comér- cio internacional brasileiro somou, naquela época, 3%. O Brasil, por outro lado, tornou- se um dos maiores parceiros da URSS entre os países em desenvolvimento. Hoje, o Brasil é o maior par- ceiro comercial da Rússia na América Latina. A crise fi nan- ceira e econômica internacio- nal provocou a queda da pro- dução industrial nos dois países, inclusive da produção voltada à exportação. Os vo- lumes de crédito minguaram e, em consequência, foram re-
NÚMEROS
3,4 95
Comércio entre os dois países já inclui produtos para os setores de energia e militar
duzidos os negócios entre os parceiros.
Segundo a estatística da Re- ceita Federal brasileira, os in- dicadores do comércio do Brasil com a Rússia em 2009 reduziram-se em 46% e che- garam a US$ 4,3 bilhões, con- tra os US$ 8 bilhões de 2008. A exportação da Rússia para o Brasil em 2009 foi de US$ 1,4 bilhão, e a importação fi - gurou em US$ 2,9 bilhões (uma queda de 57% e 39% respectivamente). Em 2009 foram exportados
para o Brasil fertilizantes, matéria-prima para fertili- zantes, carvão, derivados de petróleo, enxofre granulado e derivados de borracha na- tural. Pela primeira vez nos últimos anos, notou-se o in- cremento de vendas de pro- dutos de alta tecnologia, den- tre os quais helicópteros e peças repositoras para esses, assim como turbinas e gera- dores para as hidrelétricas em construção no país. Já do lado brasileiro, os pro- dutos agrícolas foram respon-
sáveis por grande parte das exportações para a Rússia em 2009 - 95% do total. Os pro- dutos mais exportados foram carne bovina (33,2% do total exportado), açúcar (30,3%), carne suína (19,8%), carne de frango (4,3%), tabaco (4%) e café (3,4%). Em 2010, a balança comer- cial Brasil-Rússia somou US$ 3,4 bilhões entre janeiro e julho. As exportações brasi- leiras para a Rússia foram de US$ 2,4 bilhões, ou seja, cres- ceram 41% se comparadas ao
Ranking Para analistas, fraquezas do país são mais divulgadas que vantagens
Rússia sai da crise como a melhor opção do Bric
Depois de ouvir piadas sobre a fragilidade de sua economia, a Rússia agora apresenta indicadores superiores entre emergentes.
BEN ARIS ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA
Há apenas um ano, logo de- pois de uma crise econômica global que atingiu a Rússia em cheio, analistas pediam a cabeça do “R” do Bric (o bloco de gigantes em crescimento composto por Brasil, Rússia, Índia, China). Agora que a economia se recuperou, al- guns estão se perguntando se a Rússia não seria o melhor componente do grupo. Um relatório divulgado em agosto pelo banco de inves- timentos russo Troika Dialog coloca o país do leste euro- peu como melhor aposta que a China ou a Índia. Segundo o autor do documento, Kin- gsmill Bond, as fraquezas da Rússia são mais destacadas que suas vantagens. E a van- tagem mais óbvia é que o país está repleto de todo recurso
mineral imaginável – e não apenas petróleo e gás. “O mercado emergente deve ter um crescimento superior ao da Europa e dos Estados Unidos. Como a Rússia é o principal depósito de maté- rias-primas do mundo, essa transformação não será pos- sível sem ela”, diz Bond. Além disso, a maior parte dos investidores internacionais foca na China, que tem uma população de 1,3 bilhão de pessoas e transforma qualquer produto vendido em centenas de milhões de unidades comer- cializadas. Nesse sentido, é um investimento na quantidade e não na qualidade.
Mercado é lucro
A Rússia tem uma população de 142 milhões de habitantes e representa um mercado muito menor que o chinês. No entanto, o poder de compra do povo russo é duas vezes maior do que o desses asiáti- cos e cinco vezes maior que o dos indianos. A renda per capita da Rús-
sia, ajustada ao poder de com- pra, é de cerca de US$ 19 mil, sendo que a economia ainda está em transição para o ca- pitalismo e quase todo bem de consumo tem uma alta de- manda. No Brasil, esse indi- cador é de US$ 10,5 mil, na
China, de US$ 6,5 mil e na Índia, de US$ 3,3 mil. Bond ressalta ainda que 68% da população russa é consi- derada de classe média, o que representa aproximadamen- te 100 milhões de pessoas, contra 31% no Brasil (75 mi-
Renda per capita dos países do Bric
lhões), 13% na China (160 mi- lhões) e menos de 3% na Índia (30 milhões).
A desigualdade social da po- pulação também explica a grande diferença no cresci- mento entre a China e a Índia, de 8% a 10%. A Rússia, que apresenta índice entre 4% e 6%, já possui uma sociedade industrial sofi sticada e de po- pulação instruída, enquanto os outros dois países entra- ram agora nesse caminho. Na Rússia, o número de car- ros para cada mil pessoas é cinco vezes maior do que na China, por exemplo. Sendo que o tempo de vida médio de um veículo russo é de 11,5 anos, contra 8,5 anos na Eu- ropa Ocidental, isso signifi ca que os russos terão que subs- tituir seus carros antes dos europeus, acelerando ainda mais o crescimento do setor automotivo. “A Rússia tem um potencial imenso na propriedade de carros per capita à medida em que a renda disponível cresce”, diz o estrategista da Renaissance Capital, Tom Mundy.
A Rússia em primeiro As ações russas também atra- em cada vez mais investimen- tos, já que a bolsa do país é a mais barata dos principais mercados do mundo. A relação entre o preço das
ações e o lucro por ação das companhias em mercados de- senvolvidos, índice que mos- tra o quanto o investidor está pagando pelo lucro de uma companhia, está tipicamente pouco além da dezena, mas as empresas russas estão ne- gociando bem abaixo, numa proporção de sete vezes. Quanto menor este número, mais vantajosa é uma ação, e as da Índia, do Brasil e da China se situam bem acima, em proporções de 21, 15 e 14 vezes, respectivamente. “Quando falo com investido- res em Londres, sempre reco- mendo que invistam na Rús- sia primeiro”
, afi rma o diretor
da companhia de financia- mento ING Eurasia, Danny Corrigan. “A Rússia teve um monte de problemas terríveis, mas a economia está aberta a investidores estrangeiros, enquanto as barreiras a ne- gócios na China comunista são muito altas e os indianos simplesmente excluem os es- trangeiros de muitos seto- res.” Já Bond, da Troika, diz que a Rússia se compara favoravel- mente com outros Bric “em dados mensuráveis como a fa- cilidade para fazer negócios, o tamanho do mercado, a transparência, a infraestru- tura, saúde, crime, retorno de lucros, cessão de dividendos e o coefi ciente de Gini”.
Ações Depois da crise de 2008, empresas sediadas na Rússia levaram seus negócios para pregões de outros países
Bolsa de Nova York busca retomar negócios russos
Previsão de lucro em ofertas públicas iniciais de ações emergentes está forçando a bolsa de Nova York a ampliar seus horizontes.
MIKHAIL VOLKOV ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA
Companhias russas já levan- taram bilhões de dólares em ofertas públicas iniciais de ações (IPOs, na sigla em in- glês) no mercado de câmbio.
Mas desde que a companhia de aço Mechel entrou em fl u- tuação na bolsa de Nova York (NYSE), em 2004, a maioria delas passou a negociar em Londres ou, mais recentemen- te, em Hong Kong. Agora, com as IPOs russos valendo bi- lhões de dólares e aguardan- do apenas que as condições do mercado melhorem, a bolsa de Nova York está buscando agarrar uma fatia do bolo.
“Ninguém esperava que a Rús- sia se desenvolvesse tão rapi- damente após a crise de 1998 para se tornar um país do BRIC, que agora lidera o cres- cimento global”, diz Ronald Kent, vice-presidente execu- tivo da NYSE-Euronext, re- sultado da fusão da bolsa de Nova York com a líder euro- peia no setor de câmbio. Kent, que já trabalhou com a bolsa de valores de Xangai e é res-
ponsável pelos negócios rus- sos, afi rma que “a China e a Rússia possuem, ambas, sis- temas fi nanceiros domésticos menores do que necessitam suas economias e o principal perigo é que possam acelerar demais.”
Em abril de 2008, o presiden- te russo Dmitri Medvedev es- tabeleceu a meta de transfor- mar Moscou num centro fi nanceiro internacional e lan- çou um pacote de reformas para incrementar os merca- dos de capital domésticos. O processo foi interrompido quando o colapso do banco de investimentos Lehman Brothers provocou uma queda no mercado russo de ações naquele ano, mas o Kremlin manteve-se fi rme e continuou a aprovar novas leis, como a proibição do tráfi co de infor- mação privilegiada, em agos- to de 2010.
Nova York perdeu muito de sua atração depois da intro- dução, em 2002, do Ato Sar- banes-Oxley, que estabeleceu onerosas exigências de cadas- tramento para companhias que quisessem tomar parte na bolsa. Mas depois da fusão da
Demanda reprimida de IPOs russos adiados por conta da crise pode chegar a US$ 60 bilhões
NYSE com a Euronext, a bolsa investiu mais de US$ 500 milhões na construção de um sistema integrado que permite aos negociadores comprarem e venderem ações de quaisquer cidades do mundo cobertas pela institui- ção – como Paris, Madri, Lon- dres e Nova York.
As companhias russas estão encarando com interesse a NYSE-Euronext. Sua parti- cipação também evitaria a principal queixa contra a Bolsa de Valores de Londres (LSE) – a de serem tratados como cidadãos de segunda classe. A participação da LSE está dividida em dois níveis: o das companhias registradas no Reino Unido e do resto do mundo. Já que o mercado do- méstico de ações e fundos de pensões não podem investir no segundo nível, o montan- te de capital é limitado. A Rússia só viu quatro IPOs desde que a crise começou, no fi nal de 2008, e apenas uma delas, o RusAl, teve partici- pação no mercado internacio- nal. Mas analistas calculam que a demanda reprimida de IPOs forçadas a esperar em função da crise poderia subir até US$ 60 bilhões.
bilhões de dólares Foi o nível alcançado pela balança comercial Brasil-Rússia entre janeiro e julho de 2010
porcento É a contribuição dos produtos agrícolas brasileiros no total das exportações para a Rússia em 2009
mesmo período de 2009. As importações brasileiras da Rússia somaram US$ 1 bi- lhão (crescimento de 94%). A meta da Rússia agora é in- serir no mercado brasileiro produtos de alto valor agre- gado e tecnologia, principal- mente os relacionados às áreas de energia hidrelétrica, petróleo e gás, mineração, ex- ploração pacífi ca do espaço e da energia atômica, avia- ção, medicina e telecomuni- cações.
As companhias russas se in- teressam principalmente por tecnologias brasileiras de pe- cuária e avicultura para or- ganizar cadeias produtivas. Também há necessidade de equipamentos tecnológicos para uso nos complexos pe- cuários e para o processamen- to de produtos de carne, bem
como a implementação de redes de churrascarias na Rússia. Órgãos estatais e companhias privadas russas e brasileiras estão elaborando diversos projetos de infraestrutura energética e de transporte, de nanotecnologia e de pesqui- sa e uso de recursos naturais. Também desenvolvem meca- nismos de pagamento com as próprias moedas nacionais, além de parcerias técnicas e militares e cooperação no âm- bito do BRIC. Os projetos de pequenos e mé- dios negócios entre os países ainda não tiveram um desen- volvimento digno de nota. Mesmo assim, grandes com- panhias e instituições fi nan- ceiras russas, como Power Machines, Gazprom, Rostekh- nologii, Agência Federal Es- pacial (Roskosmos) e Banco do Desenvolvimento e de Eco- nomia Externa (Vnesheco- nombank), atuam ativamen- te e com sucesso em território brasileiro. A companhia bra- sileira de aviação Embraer, por outro lado, demonstra in- teresse em estabelecer parce- rias com empresas de aviação da Rússia.Novas perspectivas de parcerias entre Rússia e Brasil se iniciam com o pro- jeto de exportação de blin- dados russos GAZ-2330 Tigre, da companhia Russkie Ma- chini (RM Corporation). Re- centemente, o Rio de Janeiro recebeu um modelo do veí- culo para testes e, se tiverem sucesso, os Tigres russos podem invadir o mercado bra- sileiro, abrindo caminho para mais uma série de produtos competitivos.
NOTAS NEGÓCIOS
Moscou inicia a venda de yuan na Bolsa
05
SXC.HU
A Bolsa de Valores de Mos- cou (Micex) planeja come- çar a venda do yuan chinês até o fi nal deste ano. A in- formação foi dada à Gazeta Russa pelo representante ofi - cial da bolsa, Nikita Beka- sov. Segundo ele, mais de 30 bancos russos já se interes- saram pela nova possibili- dade, especialmente organi- zações de crédito da Sibéria e do extremo oriente russo, regiões de fronteira com a China. “O surgimento dessa nova modalidade na Bolsa de Va- lores ampliará as possibili- dades de uso das nossas mo- edas nacionais pelos bancos e empresas”
, afi rmou. Neste
ano, o volume de comércio entre a Rússia e a China pode fi car entre US$ 50 bi- lhões e US$ 60 bilhões. Nos cinco primeiros meses a balança comercial entre Rússia e Índia cresceu 35%. Em comparação com o mesmo período do ano pas- sado, somou US$ 3,41 bi- lhões. A balança comercial Rússia-Brasil cresceu 49% no primeiro semestre e atin- giu US$ 3 bilhões. Vladislav Kuzmichev
Cooperação energética com Brasil em foco
Uma das principais priori- dades na cooperação bila- teral com a Rússia, o mer- cado brasileiro de energia foi destaque da exposição Rio Oil & Gas 2010. "A infraestrutura de com- bustível-energia tem um sig- nificado estratégico para qualquer Estado. E, natu- ralmente, os países tentam mantê-la um tanto fechada, abrindo-a apenas nas esfe- ras em que encontram al- gumas dificuldades e não podem agir independente- mente”, disse, na ocasião, o vice-diretor do Departa- mento de Política Pública e Eficiência de Energia da Rússia, Stanislav Dor- zhinkevich. No Brasil, ressaltou Dor- zhinkevich, esse processo aconteceria no setor de pe- tróleo e gás.
RIA Novosti
Brasil é o Bric que mais gasta em TI
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Os gastos do usuário fi nal de Tecnologia da Informa- ção (TI) no Brasil vão supe- rar US$ 101,3 bilhões em 2010, o equivalente a 9,6% do Produto Interno Bruto (PIB) real, segundo a com- panhia de análise e pesqui- sas tecnológicas Gartner, Inc. Essa proporção entre TI e PIB está acima da média de 6,1% dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China). Hoje o Brasil gasta mais do que o dobro da Rússia em TI e supera em 33% os gastos da Índia no setor. Segundo o vice-presidente e chefe global de pesquisas da Gartner, Peter Sonderga- ard, isso acontece porque no Brasil a TI se propaga em todo tipo de organização, en- quanto “em outros países do Bric, como a Índia, esses gas- tos se concentram em servi- ços de TI e, na China, em grandes projetos de TI do go- verno central.”
Gartner/India Infoline News Service
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