ANÁLISE E TENDÊNCIAS
Outra confusão. As informações colhidas no domicílio
(como as da PNAD) sempre registram jornadas supe-
A criação de empregos
riores às que são efetivamente trabalhadas. Muitos
informantes computam o tempo de trajeto. Outros
depende de investimentos,
somam trabalhos diferentes. Há profissões com jor-
nadas legais curtas que permitem ter dois empregos.
educação de boa qualidade
Exemplo: a jornada diária dos telefonistas, ascensoris-
tas, professores, bancários e outras é de seis horas; a
e legislação trabalhista
de jornalistas, cinco; advogados, médicos e dentistas,
quatro. Qual é o médico que não trabalha em mais de
adequada. Não é impondo
um emprego? Nesses casos, jornada curta não gerou
novos postos de trabalho.
penalidades às empresas,
Mais uma confusão. Notei pouca percepção de que os
especialmente na hora de
ganhos de produtividade são repassados parcialmente
aos salários, aos preços e aos investimentos. Pode-se
crise, que se vai criar
questionar as proporções, mas não se pode dizer que
os brasileiros em nada se beneficiaram dos recentes
emprego
ganhos de produtividade. Basta ver a queda dos
preços e a melhoria da qualidade da maioria dos pro-
dutos.
Com a produtividade atual, calculou-se que uma redução
O tema é dos mais sedutores do ponto de vista eleitoral.
da jornada de 44 para 40 horas na indústria – sem
Mas uma simples redução da jornada legal de trabalho
redução de salários – redundaria num acréscimo do custo
não garante empregos. Se assim fosse, não existiria
de produção de “apenas” 2%.
desempr
Não tenho espaço para questionar a metodologia, mas é
preciso lembrar que 2% de aumento no custo da pro-
dução industrial pode ser a diferença entre ficar ou ser
excluído do mercado. Além do mais, o custo é muito mais
alto quando se leva em conta as despesas de recrutamen-
to de novos profissionais, assim como as despesas com
treinamento, adaptação, transporte e outros benefícios
que são aplicados aos quadros existentes.
Há casos em que as empresas terão de providenciar mais
espaço físico, maquinas, equipamentos de produção,
computadores etc., além dos gastos correntes com a
manutenção dos ambientes de trabalho (eletricidade,
“
ego no mundo.
Penso que um número expressivo de parlamentares tem
interesse em aprovar medidas que efetivamente criam
empregos em lugar de formular promessas vazias que
podem agravar a escassez de empregos, especialmente
nesta hora de crise. Nesse campo não há receitas mila-
grosas. A criação de empregos depende fundamental-
mente de investimentos, crescimento, educação de boa
qualidade e legislação trabalhista adequada.
Não é impondo penalidades às empresas atuais, especial-
mente na hora de crise, que se vai criar emprego. Se
reduzir jornada fosse bom para as empresas, estas já teri-
am reduzido – algumas de fato reduziram por terem
água, telefone etc.).
condições especiais. Pela lei atual elas têm toda a liber-
dade para negociar jornadas mais baixas. Não é preciso
O custo final é enorme e pode levar as empresas a buscar
impor pela via da Constituição uma coisa que já pode ser
compensações, mecanizando mais, reduzindo a produção
feita de maneira voluntária e que já vem sendo feita em
ou intensificando o trabalho do quadro existente. Em nen-
vários setores.
huma dessas alternativas haverá contratação de mais tra-
balhadores. Ao contrário, poderá haver a destruição de
Os trabalhadores precisam ser esclarecidos. A redução da
postos de trabalho e a dispensa de parte dos empregados
jornada pode lhes custar os seus empregos e, certamente,
atuais.
comprometerá o emprego de seus filhos.
Há casos em que a adoção dessa medida comprometerá
a competitividade da empresa. Quem compete não é a
José Pastore é professor de relações do
indústria em geral, mas a fábrica de calçados, de con-
trabalho da Universidade de São Paulo.
fecções, de alimentos, que hoje tem de enfrentar a con-
Site:
www.josepastore.com.br
corrência interna e, sobretudo, a externa.
39OBSERVATÓRIO DA INDÚSTRIA agosto/setembro 2009
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