ENTREVISTA
Os negócios podem ser vistos como um
problema de design. Muito é herdado do
design: o layout de um ambiente
de trabalho, as formas de comunicar
Em entrevista à revista Observatório da Indústria,O que é e para que serve o design? A pergunta é
Bruce Mau diz como as organizações podem trabalharpolêmica e toca num tema vastamente debatido entre
com o novo conceito de design e o que deve ser feitoespecialistas, profissionais e acadêmicos. A cada dia,
para popularizá-lo. Mau fala também de seu maismais nomes de destaque da área têm defendido o
recente projeto, “In Good We Trust” (No bem nóspoder do design para trazer mudanças positivas para
acreditamos), que segue a mesma característica trans-a sociedade. Para o designer canadense e promotor da
disciplinar de seus outros projetos e é um processoinovação Bruce Mau, não é diferente. Ele acredita que
para “redesenhar o mundo”. Em 2010, este será oo design produzido de forma sistêmica é o caminho
tema da Bienal das Américas, em Denver, com o obje-para redesenhar o mundo.
tivo de celebrar o trabalho dos maiores inovadores
mundiais e empoderar uma nova cidadania global quePara Mau – que a convite da Fiep esteve em Curitiba
possa apontar novos caminhos para as Américas.recentemente, falando a empresários e outros profis-
sionais –, não é possível enxergar o design somente
Observatório da Indústria – Qual a sua definição decomo forma. É preciso
“
levar em conta o material, a
design?tecnologia, a interação, a inteligência e a energia –
Bruce Mau – Design é uma síntese entre a beleza daenfim, todo o processo que leva à criação da forma. E
arte e a lógica dos métodos da ciência. Para mim, éesta capacidade de criar deve ser utilizada para
um processo de pensamento que pode ser aplicadomelhorar a vida das pessoas. “Não devemos mais pen-
globalmente em áreas de práticas profissionais quesar isoladamente. O papel do design é desenhar um
muitas vezes não são pensadas como território donovo mundo em que gostaríamos de viver e criar nos-
design. Em nosso estúdio, consideramos comosos filhos. É preciso liberar o design das restrições do
“design” experiências, ideias, modelos, construções,objeto e enxergá-lo como processo para o desenvolvi-
identidades, sistemas, eventos e muito mais. Mas,mento de novas ideias”, afirma.
na essência, projetamos e aplicamos ideias de
design.O design deixou de ser algo singular e tornou-se um
processo complexo e coletivo. Mais interessante do
Em uma era de mudanças como a que estamosque criar sozinho algo que faz sentido para você é
vivendo, qual o papel do design e sua aplicabili-criar algo compartilhado que faz sentido para muitos.
dade prática no universo empresarial?Por exemplo, desenhar uma nova economia, uma
Mau – Trazemos concepção de design paracidade sustentável, uma escola inovadora, uma mídia
todas as esferas do mundo empresarial. Osonde as notícias boas tenham espaço. Isso pode ser
negócios podem ser vistos como um problemaredesenhado primeiramente nos conceitos e depois
de design. Muito é herdado do design: o layoutmigrar para a forma. Esse, resume Mau, é o papel
físico de um ambiente de trabalho, os produtoscomplexo do design. Assim atua de maneira transver-
e serviços, as formas de comunicar. Hoje, nossosal e multidisciplinar.
trabalho está envolvido na concepção do sis-
tema, na organização e na cultura da própriaBruce Mau é um visionário, pensador global e líder
empresa. Inovação e invenção são frequente-mundial de inovação e promoção de mudanças positivas
mente “concebidas” fora da cultura de umaatravés do design. Sua empresa (BMD, Bruce Mau
instituição. A real inovação é holística. Nós aju-Design) é sediada em Toronto e Chicago e se propõe a
damos organizações a pensar no processo dousar o poder e as promessas do design para criar um
design de forma sistêmica.futuro ético e sustentável para o mundo em que vivemos.
27OBSERVATÓRIO DA INDÚSTRIA agosto/setembro 2009
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