CAPA
Por Ricardo Sabbag e Omar Nasser Filho
A RECESSÃO
BATE À PORTA
Cenário de crise derruba indicadores da economia e adia investimentos.
Mas há quem enxergue luz no fim do túnel e até projete bons negócios
m convidado indesejado está batendo às portas
URGÊNCIA
da indústria brasileira. E, ao contrário do famoso
Uanúncio dos anos 60, está difícil não deixá-lo
O Paraná não deve escapar dos tremores que já estão
entrar. O temido fantasma da recessão está provocando os
afetando solo brasileiro, visto que sua economia está
primeiros efeitos nefastos na economia brasileira. Queda
ligada a diversas cadeias produtivas nacionais.
na produção industrial, no nível de emprego e na utilização
Pacheco vê como mais delicada a situação da indústria
da capacidade instalada já estão sendo sentidos com rigor
automotiva e da agroindústria. “Esta deve sofrer dupla-
por diversos segmentos da indústria nacional desde o últi-
mente com a crise, devido também à redução do preço
mo trimestre do ano passado. No Paraná e em todo o
das commodities”, diz.
Brasil, empresários estão pessimistas em relação ao
futuro de seus negócios como nunca estiveram nos últi-
“Há sinais claros de que estamos diante da recessão.
mos 10 anos. “Sem dúvida, o impacto da crise financeira
Para haver uma mudança de expectativas, o governo
internacional na economia brasileira foi muito forte”,
precisa ser ativo e combater este risco com senso de
avalia o economista Carlos Américo Pacheco, professor da
urgência”, afirmou o presidente da Fiep, Rodrigo da
Unicamp e consultor da CNI e do Sistema Fiep.
Rocha Loures, em reunião com empresários
paranaenses para debater medidas de combate aos
Nos últimos dez anos, a produção industrial brasileira
efeitos da crise, realizada em janeiro, em Curitiba.
nunca esteve tão baixa como no último trimestre de 2008.
O índice de evolução da produção bateu na casa dos 40,8
Na ocasião, os empresários – ligados à indústria,
pontos, o menor desde o primeiro trimestre de 1999 e
comércio, serviços, agricultura – foram unânimes em
18,2 pontos menor que o do mesmo período do ano ante-
apontar uma pauta de ações positivas para mudar a
rior, segundo dados da CNI. “Teremos um crescimento
expectativa da sociedade perante a crise. A linha mes-
pequeno da economia este ano. Em torno de zero a 1%. E
tra dessas ações deve ser baseada em mudanças na
no primeiro trimestre o crescimento do PIB será negativo”,
política monetária, como uma redução substantiva da
prevê Pacheco.
taxa básica de juros e medidas que deem maior esta-
bilidade ao câmbio. “O momento é de união contra a
Previsões desse tipo ainda eram escassas quando o
recessão e o governo precisa assumir o compromisso
cenário de crise começou a se desenhar, em setembro
maior de combater este risco, propondo mudanças na
passado. Afinal, o País vinha de um círculo de crescimen-
política monetária, que se mostra obsoleta para o
to acentuado desde 2005, suficiente inclusive para não
momento que vivemos, e promovendo a modernização
comprometer as estatísticas de 2008 como um dos
da gestão pública”, destacou Rocha Loures.
melhores anos das últimas décadas.
Mas, ao mesmo tempo em que enxerga um período de
Os números do último trimestre do ano, entretanto, deram
mares revoltos pela frente, o empresariado brasileiro
um choque de realidade nos operadores econômicos.
sabe que o País tem características próprias que
Chegou-se a um ponto em que é preciso reconhecer as
podem salvá-lo de consequências mais catastróficas,
dificuldades impostas pelo momento e passar a adminis-
como as já sentidas na economia norte-americana e
trar os estragos. Em uma metáfora popularizada nos últi-
japonesa.
mos meses, evitar que a “marolinha” se transforme em
um “tsunami”. “É a hora de pensar na produção e não
COMPETÊNCIA
somente na estabilidade financeira”, afirma o presidente
do Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade
Uma dessas características é a maior solidez do sis-
(IBQP), Carlos Artur Passos.
tema financeiro, mercê de uma inegável competência
8 OBSERVATÓRIO DA INDÚSTRIA fevereiro/março 2009
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