ENTREVISTA
A área de especialidade de Gustavo Ioschpe – economia
O professorado brasileiro usa
da educação –, aliada à sua notável capacidade de dizer
sem rodeios o que pensa, fazem deste porto-alegrense
questões sociais e ideológicas para se
de 31 anos, educado no estrangeiro, uma figura contro-
despreocupar do indispensável, que é
versa no campo da educação brasileira. Especialmente
porque as idéias que defende, seja em seus artigos para
o ensino da cultura, do conhecimento
a revista Veja e para o jornal Zero Hora, ou mais profun-
da história da humanidade
damente no livro vencedor do Prêmio Jabuti de literatura
de 2005 (A Ignorância Custa um Mundo), costumam ir
de encontro às professadas por grande parte dos edu-
cadores do País. Encontro, aliás, de impacto comparável
medidas como essa beneficiariam a educação doao de duas locomotivas viajando em direções opostas
Brasil. “O problema é que a maioria das pessoas sepela mesma ferrovia.
furta dessa discussão porque ela é politicamente
inconveniente”. Como se vê, pôr o dedo na ferida não éIoschpe não é nenhum filósofo da educação. Defende
um problema para ele.medidas que reformariam a educação do Brasil
baseadas em dados empíricos colhidos ao longo de
Observatório da Indústria – Qual o panorama da edu-seus anos de formação nas universidades americanas
cação brasileira hoje?da Pensilvânia e de Yale, esta última frequentada por
Gustavo Ioschpe – Um quadro de atraso muito grande,nomes como Paul Krugman, vencedor do Nobel de
de qualidade muito baixa. A gente tem um problemaeconomia; David Bushnell, inventor do submarino; e o
que começa na 1ª série fundamental e aí vai crescen-ex-presidente dos EUA Bill Clinton, entre uma lista de
do. Altas taxas de repetência e de defasagem, o que vaicentenas de personagens da história da humanidade.
gerando uma população de escolaridade muito baixa.
E a população com escolaridade alta tem uma edu-“O Brasil populariza a ignorância”, dispara o analista, ao
cação de qualidade baixa. É um cenário de baixíssimaapresentar dados que mostram que 72% da população
qualificação dos profissionais da educação. Tanto dosbrasileira não é plenamente alfabetizada e que 24% das
professores quanto do pessoal de gerência das esco-crianças no País repetem a 1ª série do ensino fundamen-
las. Tento mostrar que isso é fundamental para as pos-tal (quando no vizinho Chile essa taxa é de 2,5%). Até aí,
sibilidades de desenvolvimento do País. O Brasil temIoschpe só recebe manifestações de concordância. O
algumas décadas de atraso em relação ao que estáproblema é quando ele começa a dizer que as universi-
“
sendo feito em vários países de nível de desenvolvi-dades públicas deveriam ser custeadas por quem tem
mento parecido com o nosso.condições de pagar e que aumentar o salário dos profes-
sores não melhora o nível da educação.
O que é possível fazer para melhorar imediatamente
esse cenário?“Eu já defendi descriminalização do aborto, legaliza-
Ioschpe – Imediatamente tem algumas coisas queção das drogas, fim das religiões organizadas. Todos
resultariam em uma melhora limitada. O professoros tópicos tabus que você pode imaginar eu já toquei.
passar mais dever de casa, usar mais efetivamente oMas nenhum gerou tamanha agressividade, tamanha
tempo de ensino, passar mais avaliações para osvisceralidade como essa questão do fim da gratuidade
alunos, usar mais material didático, não faltar. Os gerentesdas universidades públicas”, conta em entrevista à
poderiam colocar a infraestrutura das escolas emObservatório da Indústria. Na opinião de Ioschpe,
ordem. Mas não será através desse conjunto defatores “empíricos, pragmáticos, reais” mostram que
25OBSERVATÓRIO DA INDÚSTRIA fevereiro/março 2009
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