CAPA
por exemplo, condições propícias para a realização de
novos negócios. Geralmente, empresas capitalizadas
detectam, na crise, boas chances de crescer. “Pode haver
algumas fusões e aquisições, com empresas mais fortes
comprando empresas mais fracas”, diz Nasser. Ao final
do processo, o setor real da economia surgirá mais sóli-
do. “A parcela da economia real que depende do crédito
vai passar por uma fase de desafios, mas depois haverá
uma aceleração”, prevê o consultor.
Inegavelmente, empresas com baixa liquidez têm mais
dificuldades em situações de insegurança generaliza-
da. “Empresas capitalizadas, que fizeram IPOs (ofertas
públicas de ações) ou têm dinheiro em caixa, podem
ser compelidas a ocupar espaço e ampliar sua partici-
pação no mercado”, atesta o professor Scatolin. Nos
Construção civil reviu para baixo a previsão de
setores de alta tecnologia e da construção civil, empre-
crescimento, mas espera continuar em alta
sas mais alavancadas podem enxergar em joint ven-
tures a oportunidade de atenuar prejuízos devidos ao
custo do capital. Enfim, em cenários de crise surge o
“Vamos aumentar as vendas no mercado interno”, conta
caldo de cultura para a realização daquilo que o
José Enrique Traver, diretor de Operações da Imcopa.
economista austríaco Joseph Alois Schumpeter
descreveu como “destruição criativa”.
Por outro lado, os segmentos em que é forte a partici-
pação de componentes importados, como o eletro-
As pessoas físicas também podem encontrar brechas
eletrônico e aeronáutico, veem na escalada do dólar
para realizar bons negócios, o que traz inegáveis e posi-
um forte motivo de preocupação. De alguma maneira,
tivos reflexos sobre a indústria, especialmente a da
o aumento do custo dos insumos terá de ser repassa-
construção civil. “O momento é interessante se a pessoa
do ao consumidor, o que num momento de retração de
tiver condições de comprar a casa própria”, recomenda o
demanda é uma alternativa perigosa.
consultor Altemir Farinhas. “Quando as pessoas estão
com medo, saem do banco e correm para um bem de
“O quadro geral é de prudência, de redução da atividade
segurança, como o imóvel”, considera. Para o também
econômica”, observa o consultor de empresas José
consultor Armando Rasoto, é importante “evitar a
Monir Nasser, da Avia Internacional. “Está superada a
sinistrose”. Afinal de contas, mesmo num ambiente de
ideia de uma crise curta. Veremos pelo menos dois anos
crise, as pessoas precisam se alimentar, vestir, trabalhar,
de recessão e estagnação na economia mundial”,
enfim viver. “Toda crise é passageira”, relembra o econo-
constata Pacheco. Constatação preocupante, pois o
mista José Pio Martins.
tempo trabalha a favor do problema. “Quanto mais
demorar para resolver, maior será o seu impacto no lado
Situações de crise também oferecem condições para
real da economia”, diz o professor Scatolin.
uma análise crítica da atuação da companhia, com vistas
à melhoria de processos e produtos. “Empresas não
Enquanto põem suas barbas de molho, empresários, execu-
fazem economia só com dispensa de pessoal. Elas
tivos e economistas olham para Brasília. Destravar o crédito
estariam matando a galinha dos ovos de ouro, que lá na
é condição fundamental para desanuviar o quadro e criar
frente seriam os compradores dos seus produtos”, alerta
condições para a economia avançar. Isso significa criar
Passos, do IBQP. Ele destaca que momentos assim
mecanismos de política econômica que reduzam a preferên-
geram a oportunidade de ampliar a produtividade, com a
cia pela liquidez. Um deles é condicionar a liberação dos
adoção de métodos de gestão mais avançados.
encaixes compulsórios – parcela dos depósitos que os ban-
cos são obrigados a recolher ao Banco Central – ao financia-
Cuidar com mais carinho do aspecto financeiro do negó-
mento de capital de giro e exportações. “Se não fizermos
cio adquire relevância ainda maior na atual conjuntura.
isso, teremos uma redução bastante severa da atividade
“Deve-se evitar o descasamento entre ativo e passivo”,
econômica no ano que vem”, vaticina Oreiro.
recomenda Scatolin. Outra medida importante é reter
ativos estratégicos, investindo em inovação, pesquisa e
DESTRUIÇÃO CCRIATIVA
desenvolvimento de métodos e produtos. Passada a
crise, empresas que apostarem nisso estarão mais
Momentos de instabilidade, como o atual, exigem
preparadas para a retomada dos negócios.
cautela, mas são pródigos em oportunidades. Oferecem,
11OBSERVATÓRIO DA INDÚSTRIA fevereiro/março 2009
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